Título: Condoleezza faz apelo: `Não dêem marcha a ré¿
Autor: Jailton de Carvalho
Fonte: O Globo, 28/04/2005, O País, p. 5

Secretária pede que países da América Latina não permitam retrocessos nas democracias duramente conquistadas

BRASÍLIA. A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, fez ontem um apelo para que os países da América Latina não permitam retrocessos nas democracias duramente conquistadas nas últimas décadas. Em palestra no Memorial JK, Condoleezza destacou o papel estabilizador do Brasil na região, mas voltou a criticar o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com quem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém estreitos laços políticos e de amizade. Condoleezza também defendeu a intensificação das negociações em torno da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), um mercado de 800 milhões de consumidores.

¿ A história da marcha pela democracia contém uma mensagem para cada pessoa desta região, que sente que ainda não viu seus benefícios: não percam a esperança, não percam a coragem e, acima de tudo, não dêem marcha a ré. As respostas vêm com mais reformas democráticas e não com menos ¿ afirmou Condoleezza para uma platéia de políticos, empresários, estudantes, índios e jornalistas convidados pela embaixada americana para assistir à palestra da principal auxiliar do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

Secretária nega intermediação do Brasil

Condoleezza disse que a democracia é uma conquista recente e que não pode ser menosprezada. Ela lembrou que, há apenas 25 anos, 14 países da América Latina ainda estavam submetidos a ditaduras. O quadro mudou, os ditadores deixaram o poder mas, em seu ponto de vista, é importante consolidar a democracia no continente. A secretária citou casos específicos de instabilidade no Equador, na Bolívia, na Colômbia, criticou Cuba e, mais uma vez, alfinetou o governo de Hugo Chávez.

¿ Governos eleitos democraticamente têm que governar democraticamente. Estamos preocupados com o que acontece com o processo democrático e com as oportunidades democráticas: há uma imprensa livre? Há um espaço para a oposição se mobilizar? Como o Congresso será tratado? O que acontece com os críticos do governo? ¿ perguntou Condoleezza, em resposta à pergunta sobre a situação da Venezuela.

As relações entre Estados Unidos e Venezuela se deterioram nos últimos dias. Semana passada, Chávez cancelou os acordos de cooperação militar que governo venezuelano mantinha com o americano. Na segunda-feira, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, fez uma rápida viagem ao país, onde teve um encontro com Chávez. Condoleezza negou, no entanto, que Dirceu ou qualquer outro representante do governo brasileiro esteja intermediando uma reaproximação entre os dois países.

Críticas a Fidel Castro, outro aliado político de Lula

Como contraponto aos avanços democráticos no continente, Condoleezza reafirmou a política americana anti-Fidel Castro, outro aliado político do presidente Lula. Como prova do suposto mau exemplo, ela argumenta que até hoje o governo cubano não foi aceito entre os integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA).

¿ Hoje, quando os países democráticos se reúnem na OEA tem apenas uma cadeira vazia à mesa. Cuba continua demonstrando uma verdade política universal: abandonar as regras apenas leva a opressão de pessoas inocentes ¿ afirmou.

Mas, mesmo com duras críticas a dois importantes aliados do governo brasileiro, Condoleezza exaltou o papel estabilizador da democracia brasileira na América Latina e elogiou méritos pessoais e políticos de Lula. Ela disse que a democracia brasileira é multiética e vibrante. A secretária disse ainda que Brasil e Estados Unidos devem atuar como parceiros e não como adversários, como querem alguns.

¿ Algumas pessoas acreditam que seria melhor para o equilíbrio que fôssemos rivais ao invés de multiplicarmos nossas forças. Mas os Estados Unidos rejeitam esse tipo de pensamento como uma relíquia do passado ¿ afirmou.

Condoleezza defendeu, em entrevista ao ¿Jornal Nacional¿, a flexibilização da legislação americana para imigrantes ilegais. Ela defendeu a criação de programas temporários que permitam aos estrangeiros trabalhar em atividades e serviços que os americanos se recusam a fazer.