Título: SÍRIA CONCLUI RETIRADA HISTÓRICA
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Fonte: O Globo, 27/04/2005, O Mundo, p. 27
Tropas deixam o Líbano após 29 anos, mas Annan diz que ainda há exigências a cumprir
Os últimos soldados sírios que permaneciam no Líbano deixaram ontem o país, encerrando 29 anos de uma presença militar que chegou a 40 mil soldados nos momentos mais difíceis da guerra civil libanesa (1975-1990), e que até semanas atrás estava em torno de 14 mil. Assim que as tropas sírias cruzaram a fronteira a bordo de ônibus, libaneses comemoraram o momento histórico, principalmente opositores do governo pró-Damasco. Muitos dançaram, cantaram e agitaram bandeiras nas ruas de Beirute e outras cidades.
- Estamos muito felizes, estamos celebrando. A minha vida inteira eu pedi que isto acontecesse - disse o consultor de informática Khaled Saleh, de 24 anos.
Em carta assinada pelo chanceler Farouq a--Shara, a Síria informou à ONU que estava completando a retirada em obediência à resolução 1559 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, declarou:
- Não houve progresso na implementação de outras exigências da resolução.
Annan disse que uma investigação preliminar mostrou que a Síria desfez seu aparato de inteligência apenas em alguns lugares. Afirmou ainda que, de acordo com opositores, a inteligência síria assumiu novas posições no país. O descumprimento da resolução, afirmou, ameaça adiar as eleições libanesas livres anunciadas para maio. Outra exigência da ONU é o desarmamento de milícias, inclusive o Hezbollah, o que Beirute rejeita, alegando que o grupo - também um partido político - representa um movimento de resistência para libertar fazendas em Shebaa controladas por israelenses.
Uma equipe da ONU chegou ontem ao Líbano para verificar a retirada das tropas e obter mapas de posições que a Síria ocupava e relatórios sobre sua presença militar no país.
Para analistas, a Síria manterá sua influência no país vizinho. Samir Baroudi, cientista político da Universidade Americana Libanesa, em Beirute, disse que "com certeza haverá uma redução do envolvimento sírio nos assuntos internos libaneses", mas acrescentou:
- Continuará a haver uma coordenação de alto nível entre os dois países enquanto houver relações econômicas bilaterais e o processo de paz geral no Oriente Médio.
Para o primeiro-ministro do Líbano, Nagib Mikati, com a retirada de tropas sírias "começa uma nova era política nas relações entre os dois países irmãos baseada em íntima cooperação em todos os campos".
Para Shimon Perez, Hezbollah também deve desocupar o Líbano
Os militares sírios se despediram dos libaneses numa cerimônia na base aérea fronteiriça de Riyyak, no Vale do Bekaa. Em seguida, oito ônibus com cerca de 200 soldados cruzaram a fronteira. A bordo, soldados agitavam bandeiras sírias e fotos do presidente Assad.
A presença militar síria no Líbano teve início em 1976, numa tentativa de pôr fim à guerra civil, que só terminaria em 1990. Autoridades libanesas pró-Síria dizem que 12 mil soldados sírios morreram no Líbano. Depois da guerra civil, os sírios dominaram o Líbano, encontrando pouca oposição internacional, até que em setembro do ano passado a ONU exigiu sua retirada. Em fevereiro, o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik al-Hariri - que libaneses atribuíram a Damasco - desencadeou protestos contra a Síria e pressão internacional pela retirada das tropas sírias, iniciada finalmente semanas atrás.
Israel disse esperar que agora surja um Líbano livre e democrático e que o Exército libanês passe a comandar o Hezbollah, grupo pró-Síria e anti-Israel que controla a fronteira sul do país.
- Depois de a ocupação síria chegar ao fim, esperamos ver também o fim da ocupação do Hezbollah, e então veremos um Líbano livre e democrático vivendo em paz e prosperidade perto de nós - disse o vice-primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres.
Os EUA afirmaram que ontem foi um dia histórico, mas acrescentaram que ainda há preocupações com a presença de agentes da inteligência síria no Líbano.
BOXE EXPLICATIVO
Histórico da tensão
Líbano e Síria têm séculos de história comum e relações complexas desde que as fronteiras entre os dois países foram demarcadas no século passado.
DELIMITAÇÃO DAS FRONTEIRAS: Reino Unido e França decidiram os territórios dos países após o desmantelamento do Império Otomano. Os franceses queriam criar um Estado de maioria cristã liderado por cristãos, mas depois incluíram regiões muçulmanas antes de criar o Líbano, em 1920.
INDEPENDÊNCIA E GUERRA: O Líbano se tornou independente em 1943 e a Síria, em 1946.
TENSÃO BILATERAL: O Líbano se recusou, em 1958, a aderir à República Árabe Unida (RAU), união entre Síria e Egito. A Síria pressionou para que as áreas islâmicas fossem anexadas. Para evitar a guerra, os EUA enviaram soldados ao Líbano. A RAU acabou em 1961.
MIGRAÇÃO PALESTINA: Milhares de palestinos expulsos de Israel e da Jordânia entraram no Líbano e se opuseram ao governo.
GUERRA CIVIL: Tensões sectárias provocaram a eclosão de uma guerra civil em 1975. Tropas sírias entraram no país em 1976 a convite do governo cristão, mas não terminaram com a guerra, que durou até 1990.
INVASÃO DE ISRAEL: Israel invadiu o sul do Líbano em 1978 e todo o país em 1982, afastando tropas sírias. Os israelenses ocuparam o sul do país até 2000.