Título: Severino sob vaias no 1º de Maio
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 02/05/2005, O País, p. 3

Presidente da Câmara teve que gritar para concluir discurso no ato da Força Sindical

Oresidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi vaiado ontem duas vezes ao participar da festa de 1º de Maio organizada pela Força Sindical. Os primeiros gritos e assovios surgiram quando o deputado Luiz Antonio de Medeiros (PL-SP) usou o microfone para anunciar a chegada de Severino ao palanque montado na Praça Campo de Bagatelle, na Zona Norte de São Paulo. Principal convidado para o evento, o presidente da Câmara voltou a ser vaiado durante seu discurso, que durou menos de quatro minutos.

¿ Que maravilha, que maravilha ¿ iniciou Severino, parecendo ignorar as vaias.

Depois de dizer que ¿acabou com a 232¿ (a Medida Provisória 232, que aumentava impostos de empresas prestadoras de serviços), o deputado disse que tentará ¿acabar com a maior agressão ao trabalhador, que é a 242¿, sem explicar que essa nova MP restringe a concessão do auxílio-doença. Ao encerrar, praticamente gritando para vencer as vaias, fez um apelo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

¿ Não faça o povo sofrer. Nós precisamos da sua ajuda, presidente.

A seu lado, o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, acenava com as mãos para que a platéia parasse de gritar. Não foi atendido: a cada gesto seu, o público respondia com o sinal de negativo, com o polegar para baixo. No que deveria ter sido o ponto alto da festa, que teve sorteio de cinco apartamentos e de dez carros novos e show de Chitãozinho e Xororó, o público estimado pela Polícia Militar era de mais de um milhão de pessoas.

Deputado ainda ataca jornalistas

Severino deixou o palanque constrangido, mas insistiu que as vaias foram para o governo Lula.

¿ As vaias foram para o governo. Não fui vaiado, fui aplaudido. Nunca vi tantos aplausos juntos, vocês não viram? ¿ disse Severino aos jornalistas, que chamou de tendenciosos.

Além de sindicalistas ligados à Força Sindical, a relação de participantes distribuída incluía a presença de pelo menos cinco governadores, de presidentes de partidos que fazem oposição ao PT no Congresso e do ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini. Mas além de Severino, só estavam o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o presidente nacional do PPS, Roberto Freire.

Os que usaram o microfone antes de Severino foram orientados a não prolongar a fala, para dar mais tempo aos principais convidados. A regra só não valeu para o presidente da Câmara, para Alckmin e para o presidente da Força Sindical. O governador paulista discursou logo depois de Severino e, percebendo o constrangimento geral, usou apenas um minuto.

¿ Precisamos sair dessa mesmice de só controlar a inflação aumentando os juros e tirando o sonho e a esperança dos nossos jovens. Hoje é dia de trabalho, de luta e de festa ¿ afirmou Alckmin.

Perguntado depois sobre as vaias a Severino, Alckmin disse que isso faz parte da vida pública. Paulinho atribuiu o protesto a pessoas que estavam ali só para ver os shows e para o sorteio dos prêmios.

¿ Foram pequenas vaias, que acabam contaminando.

Depois de dizer que Severino ¿tem moralizado o Congresso¿, Paulinho brincou:

¿ As únicas pessoas que podem falar muito tempo aqui e não ser vaiadas são o Dom Cláudio, porque as pessoas têm medo de vaiar e não ir para o céu, e eu, porque têm medo que eu não faça outro show deste.

A festa da Força Sindical foi marcada por ataques à política econômica do governo. Paulinho disse que convidou Lula a participar da festa, mas que o presidente ¿não teve coragem de ir porque talvez fosse vaiado¿.