Título: AS ASSOMBRAÇÕES DE BRASÍLIA
Autor: Roberto Machado
Fonte: O Globo, 03/05/2005, Opinião, p. 7

Há 26 anos, os sociólogos Enzo Faletto e Fernando Henrique Cardoso formularam a hipótese de que a dicotomia desenvolvimento/subdesenvolvimento daria lugar à incorporação dos países subdesenvolvidos (ou parte deles) a um sistema econômico global. Mas esses países não estariam em pé de igualdade com os chamados países centrais. Ao contrário, manteriam uma relação de dependência. Os dois teóricos partiam ainda de uma segunda constatação: a crescente hegemonia do capitalismo financeiro sobre outras formas de reprodução do capital. Na época, Faletto e Cardoso, ou qualquer outro analista, não poderiam prever a velocidade com que o capital financeiro se tornou hegemônico. Foram as crises dos anos 80 e 90, resultantes de desequilíbrios e volatilidades do fluxo internacional de capitais, que cristalizaram essa predominância. Ninguém poderia prever ainda que um país que estava fora do mapa econômico em 1969 acabaria se tornando o fiel da balança.

Convertida às regras do sistema global, a China dita hoje, ao lado dos Estados Unidos, os rumos do capitalismo. Nos próximos meses e anos, salvo eventos como 11 de setembro, a economia internacional dependerá fundamentalmente de duas taxas: o câmbio chinês e os juros americanos. É uma relação complexa. O câmbio desvalorizado na China faz os Estados Unidos alimentarem uma dívida gigantesca, que exigirá juros compatíveis com esse endividamento. O Brasil, que depende dos humores de Wall Street e do Partido Comunista Chinês, precisa estar preparado para diversos cenários. Se o governo chinês valorizar o yuan, haverá uma reacomodação de preços mundial. Uma escalada de juros nos Estados Unidos reverterá a conjuntura que faz Lula navegar em céu de brigadeiro. Os dólares voltarão para Wall Street.

Isso exige que o Brasil se prepare para mudanças. Há muito sendo feito: a redução drástica da dívida nacional indexada à moeda americana, o reforço das reservas internacionais, a tímida melhora na qualidade do endividamento público. Mas há muito a fazer. E se havia a suspeita de que retrocedemos em alguns aspectos, as recentes declarações de Severino Cavalcanti, terceiro homem na hierarquia da República e líder máximo do Legislativo, não deixam dúvidas. Retirar a competência exclusiva do Banco Central na execução da política monetária é ressuscitar um dos mais assustadores fantasmas do passado.

A experiência dos políticos com poderes para emitir dinheiro, conceder crédito e fixar juros custou ¿ e ainda custa ¿ muito caro à sociedade. Basta apenas citar a história de um modesto banco público estadual: o do Pará.

Talvez até o próprio Severino saiba da inviabilidade da proposta. Mas lamentavelmente os factóides triunfaram na política. Enquanto o país perde tempo com eles, ajustes importantes na política econômica vão sendo adiados. Muitos especialistas defendem, por exemplo, uma mudança no sistema de metas, com a adoção do chamado core inflation, ou núcleo da inflação. Consiste em retirar do índice fatores sazonais ou circunstanciais, como a variação de preços agrícolas na entressafra ou uma alta súbita e efêmera do preço do petróleo. Assim, o núcleo da inflação reproduziria mais fielmente as condições de oferta e demanda ¿ e talvez os juros não punissem tanto a produção e o trabalho. Apontada como saída para o colapso da infra-estrutura, as Parcerias Público-Privadas não saíram do papel. Aprová-las no Congresso foi mais fácil do que estabelecer as regras para que elas funcionem. Isso sem falar na reforma tributária, no desequilíbrio persistente das contas da Previdência, nas ameaças à responsabilidade fiscal e na mãe de todas as reformas: a da educação pública (sem investimentos no ensino fundamental e na qualificação de professores e professoras não iremos mesmo a lugar algum).

O Brasil tem ainda um assombroso desafio político: enfrentar os fantasmas do passado. Embora parte do PT faça muito barulho criticando Antonio Palocci, os petistas sabem bem que os maiores obstáculos ao governo Lula estão reunidos em um mesmo lugar: Brasília. Para obter a maioria no Congresso que lhe permite governar, o PT está pagando um preço altíssimo: a sua própria identidade. As dificuldades nesse campo, aliás, são proporcionais à gravidade das denúncias contra Romero Jucá (sim, o Banco do Estado do Amazonas). Embora para José Genoino PT e governo sejam instâncias políticas diferentes, para a esmagadora maioria dos brasileiros PT e Lula são exatamente a mesma coisa. Ano que vem, a fatura será cobrada em votos. Mas diga-se: os fantasmas do passado não são aparições exclusivas do Palácio do Planalto. Eles assombram também a oposição. E podem explicar o nebuloso caminho que teria levado o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, formulador da sofisticada Teoria da Dependência, a contribuir para a eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados, a julgar pelo que afirmam os habitantes de Brasília que não somente acreditam em fantasmas: conversam com eles.

ROBERTO MACHADO é jornalista.