Título: `A comunidade internacional deseja a destruição das armas¿
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 03/05/2005, O Mundo, p. 27
NOVA YORK. Eleito ontem por unanimidade para presidir a conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o embaixador brasileiro Sérgio de Queiroz Duarte acha que o principal desafio da reunião é conciliar a preocupação com a não-proliferação de armas com a necessidade do uso pacífico da energia nuclear. ¿É um equilíbrio muito difícil de alcançar¿, disse ele em entrevista ao GLOBO.
Quais as questões-chave da conferência?
SÉRGIO DE QUEIROZ DUARTE: Cada país ou grupo de países enxerga pontos mais importantes. Na minha avaliação o principal desafio é conciliar as necessidades de não-proliferação com a liberdade que países devem ter de usar pacificamente a energia nuclear. Como promover usos pacíficos e restringi-los para evitar a proliferação. É um equilíbrio muito difícil de alcançar, e o principal desafio da conferência.
Como analisa o fato de a Coréia do Norte ter deixado o tratado?
DUARTE: É a primeira vez que a conferência terá de se ocupar seriamente da possibilidade de países renunciarem ao tratado. Acho que será a primeira vez que isso será abordado. Alguns países acham que a conferência deve propor medidas em relação à Coréia do Norte, outros acham que é preciso dar mais tempo ao assunto porque cinco países (Japão, China, Coréia do Sul, EUA e Rússia) querem trazê-la de volta ao tratado. A conferência hoje (ontem) decidiu que não discutirá o status da Coréia do Norte, se o país ainda é ou não membro do tratado, e deixar àqueles cinco países a responsabilidade da negociação. Durante a conferência se resolverá se uma atitude mais forte será tomada em relação à Coréia do Norte.
O secretário-geral, Kofi Annan, pediu que as potências nucleares reduzam drasticamente suas ogivas. É uma medida factível?
DUARTE: Elas podem não ser factíveis a curto prazo. Rússia e EUA celebraram acordos de redução de seus arsenais. O que se cobra é que essas reduções prossigam, sejam mais transparentes e irreversíveis. Algumas das armas que eles dizem estar eliminando na verdade estão sendo estocadas e podem ser reutilizadas. A comunidade internacional deseja uma destruição das armas mas isso, aparentemente, não acontece.
O que de prático pode sair da conferência?
DUARTE: Sucesso seria a reafirmação dos compromissos dos países com o tratado. E talvez algumas recomendações. Recomendar à Agência Internacional de Energia Atômica que reforce instrumentos de verificação dos compromissos dos países, e recomendar às potências nucleares a adoção de medidas efetivas para aumentar garantias de que efetivamente pretendem se desfazer das armas.
O que fazer para evitar que países como o Brasil voltem a ser pressionados porque estão desenvolvendo tecnologia nuclear própria?
DUARTE: É importante que defendam sua capacidade de desenvolver tecnologia nuclear de forma que a comunidade internacional não tenha motivos para duvidar das suas intenções pacíficas. É isso que o Brasil tem feito. Ao longo da sua História jamais deixou de se colocar inteiramente à disposição da comunidade internacional para que seus atos pudessem ficar fora de suspeita. E jamais foi acusado de maneira séria de ter intenções ocultas. (H.C.)