Título: QUESTÃO NUCLEAR: Sinal vermelho para Irã e Coréia
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 03/05/2005, O Mundo, p. 27

EUA querem privar países de energia atômica para fins pacíficos. ONU pede corte de armas

As tensões em torno da questão nuclear explodiram logo no primeiro dia da conferência internacional para rever o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, aberta ontem na ONU com a presença de 188 países. Num discurso sem muito espaço para a conciliação, os Estados Unidos defenderam que países como Irã e Coréia do Norte sejam impedidos de usar energia nuclear para fins pacíficos por estarem violando os acordos internacionais.

¿ O uso da energia nuclear para fins pacíficos deve estar condicionado ao cumprimento das obrigações do tratado ¿ disse o subsecretário de Estado Stephen Rademaher, chefe da delegação americana.

A proposta americana rompe o pacto estabelecido há 35 anos, quando o tratado foi assinado. Pelo acordo, 183 Estados renunciavam à corrida por armas nucleares, mas, em compensação, recebiam a garantia das potências ¿ EUA, China, França, Rússia (na época União Soviética) e Reino Unido ¿ de que não seriam impedidos de usar a energia nuclear para fins pacíficos.

Num tom bem diferente, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu que Irã e Coréia do Norte renunciem à aventura nuclear, mas afirmou que eles não podem ser impedidos de usar a fonte de energia para o desenvolvimento. Deixando claro que a conferência deve tratar também de desarmamento, apelou para que EUA e Rússia façam reduções maiores nos seus arsenais atômicos.

¿ Um importante passo seria que os antigos rivais da Guerra Fria se comprometessem, irreversivelmente, com cortes mais profundos de seus arsenais e o número de ogivas passasse a ser de centenas e não milhares ¿ disse.

O secretário-geral tentou desarmar a polêmica que ameaça levar a conferência ao impasse dizendo que é importante discutir tanto o desarmamento como a ameaça de proliferação de armas nucleares, como propõe a maioria dos países.

Condoleezza adverte Coréia do Norte

Mas as declarações do representante americano confirmaram os temores de muitos dos participantes da reunião de que os EUA estão dispostos a usar a sua força para transformar a conferência numa discussão sobre Coréia do Norte e Irã, a quem acusam de ter usado brechas do acordo para construir armas nucleares. A secretária de Estado Condoleezza Rice reforçou a posição americana avisando que Washington tem meios importantes e várias opções para frear a ameaça da Coréia do Norte.

Até o fim do dia tinha sido impossível um consenso sobre a agenda, o que preocupou alguns diplomatas. Para o chefe da Divisão de Desenvolvimento e Tecnologia Sensível do Itamaraty, Santiago Mourão, o discurso de Annan deixou claro que existem novas ameaças nucleares, mas muitas são as mesmas do fim da Segunda Guerra, o que não justificaria centrar a discussão em Irã e Coréia do Norte.