Título: EMPREGO INDUSTRIAL CRESCE. MAS COM BAIXA QUALIDADE
Autor: Ronaldo D'Ercole
Fonte: O Globo, 02/05/2005, Economia, p. 15
Empresas criaram 2,5 milhões de vagas de 99 a 2003. Salários, porém, são menores e a rotatividade, maior
SÃO PAULO. A mudança do regime cambial, em 1999, abriu caminho para a recuperação de uma década de demissões na indústria brasileira, permitindo que as empresas voltassem a contratar. Entre 1999 e 2003, puxado principalmente pelo aumento das exportações, o nível de ocupação industrial foi acrescido de 2,5 milhões de postos, uma média anual de 617 mil contratações ¿ ou um terço do total de empregos criados no país nesse período.
Por outro lado, a maior parte dos novos empregos industriais paga salários mais baixos, reduz garantias e estimula a rotatividade da mão-de-obra. Boa parte da competitividade da indústria nacional baseia-se no baixo custo do trabalho, como ocorre em países emergentes da Ásia.
A conclusão é do estudo do economista Márcio Pochmann, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp. Com base em números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) que abrangem as décadas de 1980 e 1990 até 2003, o estudo diz que os empregos industriais agora seguem padrões ¿definidos pelas políticas neoliberais¿.
¿ Houve um retrocesso em relação ao padrão de emprego industrial que se tinha no passado ¿ diz Pochmann. ¿ E o que se vê é a consolidação do padrão asiático de trabalho, fundamentado no baixo custo em dólar, na alta rotatividade e na flexibilização dos contratos.
O estudo mostra que, embora o número de empregos na indústria em 2003 fosse 11,4% superior ao de 1989, a massa total de rendimentos era 33,9% menor: a grande maioria das novas contratações paga salários de até dois mínimos.
Segundo o estudo, de 1999 a 2003, enquanto 861,3 mil vagas com remuneração superior a dois mínimos foram eliminadas, 3,3 milhões de vagas foram abertas com remuneração menor ou igual a dois mínimos. O salário médio real no setor, que era de R$938 há duas décadas, caiu para R$482 entre 1999 e 2003.
E nos anos 80, quase 90% dos trabalhadores na indústria eram assalariados. Em 2003, esse contingente caiu para 74% dos ocupados no setor. No mesmo período, o número de autônomos que trabalham na indústria cresceu de 6,5% para 19% do total. Hoje, registra o estudo, menos de seis de cada dez trabalhadores no setor têm alguma proteção social e trabalhista.
O economista diz ainda que a elevada rotatividade favorece a redução dos rendimentos. Hoje, 53% dos trabalhadores na indústria estão empregados na mesma empresa há até dois anos. A descentralização da produção industrial, que deslocou-se do Sudeste para outras regiões do país, também contribuiu para a deterioração do emprego. As indústrias do Sudeste, que tinham 63,1% dos trabalhadores do setor há duas décadas, hoje empregam 51,3%.