Título: Ex-prefeito depõe e tenta culpar tucanos
Autor: Adauri Antunes Barbosa e Flávio Freire
Fonte: O Globo, 14/10/2004, O País, p. 8
Pressionado em diversas frentes pelo Ministério Público às vésperas de declarar publicamente apoio à prefeita Marta Suplicy, o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) tentou mais uma vez ontem transformar o cerco legal do qual é alvo em questão político-eleitoral. Ao depor no Ministério Público sobre uma suposta tentativa de suborno a um ex-vereador, Maluf disse que as acusações contra ele fazem parte de ¿uma armação dos tucanos¿. A estratégia malufista é associar as ações do Ministério Público ao PSDB e, assim, tentar jogar seus eleitores contra o candidato tucano, José Serra. Ele deve anunciar publicamente seu apoio a Marta amanhã.
Maluf foi ouvido pelo promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado, que investiga suspeita de corrupção de testemunha baseada em fitas divulgadas pela revista ¿IstoÉ¿. Nas fitas, o ex-vereador Brasil Vita (PP) negocia em nome de Maluf para que o ex-presidente da Câmara Armando Mellão retire denúncias contra o ex-prefeito e diga que foi pago por Serra para atacá-lo. Maluf negou ter feito qualquer proposta a Mellão.
Polícia Federal indiciou Maluf e o filho anteontem
Anteontem, o ex-prefeito e seu filho, Flávio, foram indiciados pela Polícia Federal por peculato, formação de quadrilha, evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Os crimes são referentes à suposta existência de contas de Maluf no exterior alimentadas com dinheiro desviado de obras públicas. O Ministério Público Federal deve apresentar até o fim do mês denúncia criminal contra o ex-prefeito. Caso a Justiça aceite a denúncia, Maluf poderá ser condenado a penas que variam de dois a 12 anos de prisão.
Na semana que vem, o promotor Sílvio Marques, do Ministério Público Estadual, deve oferecer denúncia contra Maluf por improbidade administrativa, após três anos de investigação sobre a existência de contas do ex-prefeito e de seus parentes no exterior que somariam US$ 200 milhões, como resultado do superfaturamento de obras do Túnel Ayrton Senna e da Avenida Águas Espraiadas (atual Avenida Roberto Marinho).
Após depor, Maluf disse que tudo não passa de ¿armação de tucanos¿ que querem prejudicar seu possível apoio a Marta.
¿ Mellão queria praticar algum tipo de extorsão referente a Serra, mas acredito que a campanha tem de ser limpa e os tucanos estão se mostrando os dedos-duros. Primeiro quiseram destruir a candidatura de Roseana Sarney. Depois, Ciro Gomes. Agora querem diminuir meu eventual apoio a um ou outro candidato ¿ disse Maluf.
Vita, que também depôs ontem, assumiu a autoria dos diálogos, mas negou ter negociado em nome de Maluf.
¿ Vita disse que deu corda a Mellão para ver até onde aquilo iria ¿ disse o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro.
Maluf disse que Mellão não tem qualificação para acusá-lo:
¿ Mellão é um desqualificado, ex-presidiário e chantagista.
Mellão foi acusado de chantagear empresários
O ex-presidente da Câmara foi preso no início do ano acusado de chantagear empresários dizendo ter documentos confidenciais da CPI do Banestado.
¿ Se Mellão veio a pedido dos tucanos, aconselho humildemente que melhorem suas amizades pois, como dizia meu avô, diz-me com quem andas que te direi quem és. Quem anda com Mellão não pode ser gente boa ¿ disse Maluf.
O ex-prefeito deu novos indícios de que vai declarar apoio a Marta. Disse que não vai ficar em cima do muro e que anuncia sua decisão até amanhã:
¿ Como não fico em cima do muro, vou dizer para quem vou pedir votos e por quê.
Quando saía da sede do Ministério Público, Maluf ouviu o passageiro de um ônibus gritar:
¿ Este aí rouba mas faz. Duvido que alguém encontre alguma coisa dele na Suíça!
Maluf virou-se para os repórteres e reagiu a seu estilo:
¿ Viram como tem gente que me defende?