Título: Universidades têm mais vagas que candidatos
Autor: Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 14/10/2004, O País, p. 13
O número de universitários no país cresceu 11,7% em 2003, índice mais baixo do que o registrado nos três anos anteriores. Pela primeira vez, no entanto, a quantidade de vagas oferecidas em vestibular e outros processos seletivos superou o total de estudantes que terminaram o ensino médio no ano anterior. É o que mostra o Censo da Educação Superior 2003, divulgado ontem pelo Ministério da Educação (MEC).
Segundo o Censo 2003, foram oferecidas no vestibular e por outros mecanismos de seleção pelas 1.859 instituições de ensino superior 2.002.683 vagas, um acréscimo de 12,9% em relação ao ano anterior. Esse número foi maior que o total de concluintes do ensino médio em 2002 (1.884.874). Ou seja, havia vaga para todos e até vagas ociosas. Não se pode desconsiderar, no entanto, o contingente de vestibulandos que concluíram o ensino médio em anos anteriores. Cerca de cem mil estudantes tinham idade acima de 40 anos.
Taxa de crescimento em 2002 foi de 14,8%
Já o aumento de 11,7% no total de matrículas significa um acréscimo de 407.858 estudantes de graduação no ano passado em relação a 2002, quando a taxa de crescimento ficou em 14,8%. De acordo com o censo, o país passou a ter 3.887.771 universitários no primeiro ano do governo Lula.
Para o ministro da educação, Tarso Genro, as dificuldades econômicas e o impacto delas no bolso da população podem ter freado o ritmo de expansão do ensino superior, que ainda assim cresceu a uma taxa acima de dois dígitos. A economia brasileira encolheu 0,2% no ano passado.
¿ O que existe na verdade é um processo de empobrecimento geral da sociedade brasileira que se reflete ao longo desses últimos 20 anos ¿ afirmou o ministro.
O Rio concentrava 10,8% do total de matrículas no país, com 420.489 estudantes em 2003. O crescimento foi de 9,4% em relação a 2002.
Apesar da expansão do ensino superior e do aumento nacional de matrículas em taxas acima de dois dígitos desde 1999, o Brasil ainda apresenta baixa proporção de universitários de 18 a 24 anos: 9%, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC responsável pelo censo. Esse índice é inferior ao de países vizinhos com Argentina, Chile e até a Bolívia.
Se forem considerados os alunos dessa faixa etária que estudam em outros níveis de ensino (taxa bruta), a proporção sobe para 15%, segundo o diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do Inep, Dilvo Ristoff.
¿ Se olharmos a taxa bruta, saímos feio na fotografia. Na taxa líquida, saímos horríveis ¿ resumiu Ristoff, lembrando que o Plano Nacional de Educação prevê que, até 2010, 30% da população entre 18 e 24 anos estejam no ensino superior
Para atingir a meta, será preciso matricular mais 5 milhões de estudantes até o fim da década. Só será possível se o setor privado continuar crescendo e o governo investir mais nas instituições públicas.
¿ Ao mesmo tempo em que fixou as metas, o Plano Nacional de Educação previa um aumento gradativo dos investimentos até 7% do PIB (Produto Interno Bruto). Mas isso foi vetado pelo governo Fernando Henrique ¿ disse Ristoff.
O Censo 2003 mostrou que sete em cada dez universitários (70,8%) estavam matriculados em instituições particulares, mantendo a tendência de concentração no setor privado. Em 2002, o segmento respondia por 69,7% dos alunos. As matrículas nas instituições particulares cresceram 13,3% no ano passado, menos do que os 16,1% de 2002. O setor público teve aumento de apenas 8,1%.
Tarso disse que as instituições privadas crescem num ritmo mais acelerado do que as públicas por causa do ¿modelo de desenvolvimento¿ adotado no país.
¿ Elas crescem mais porque a lógica de desenvolvimento do ensino superior no Brasil até agora foi uma lógica puramente mercantil, sem um sistema regulatório eficaz ¿ disse o ministro, que no mês que vem deverá divulgar a versão final de sua proposta de reforma universitária.