Título: O PMDB e outras cargas perdidas
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 06/05/2005, O Globo, p. 2
O presidente Lula estava naqueles dias. O ministro Dirceu estava uma fera. Ao longo do dia, os dois soltaram baforadas de queixas contra o PMDB. Reclamaram principalmente de Renan Calheiros, de quem esperavam papel mais ativo como aliado depois de ter chegado à presidência do Senado com apoio do governo. Mas Renan e Sarney, há 15 dias, avisaram a Lula do que estava para ocorrer.
Ou seja, do ocorrido anteontem, a prorrogação do mandato de Michel Temer na presidência do partido, fortalecendo com isso a tese da candidatura própria, que não seria outra, até onde a vista alcança, senão a do ex-governador Garotinho. E tê-lo como concorrente é tudo o que Lula não quer. As pesquisas indicam que nenhum dos candidatos tucanos (com exceção de Serra, que está amarrado ao cargo de prefeito de São Paulo) teria, hoje, cacife eleitoral para forçar um segundo turno contra Lula. Apenas Garotinho teria este potencial.
Mas no dia 22 de abril, de fato, Renan e Sarney estiveram com Lula e o avisaram dos planos da outra ala. Sugeriram que o presidente promovesse uma conversa ampliada com o partido e que o governo tratasse de resolver pendências que vinham aborrecendo os do grupo aliado. Tal encontro aconteceu ontem, depois do leite derramado.
- O que mais quer o PMDB? - perguntou o presidente a uma das pessoas com quem conversou, exibindo uma lista de cargos ocupados pelo partido. Já Dirceu teria esbravejado contra Renan, dizendo que não se mexeu para impedir a decisão, aprovada numa repentina reunião da executiva, com o voto também dos governistas, à exceção do senador Ney Suassuna. Lula e Dirceu parecem suspeitar que o grupo de Renan juntou-se aos oposicionistas para pressionar o governo, deixando-o mais incerto quanto à aliança para 2006, e com isso aumentar as exigências, sejam as de participação no governo, sejam as eleitorais.
Renan foi ao Planalto preparado para responder às cobranças. Avisado, quem não se mexeu foi o governo. Ele, afinal, não é coordenador político, mas presidente do Senado.
E isso nos leva à questão central, a desorientação política do governo, que tem na relação instável com o PMDB apenas um de seus componentes. Ontem mesmo, o governo sofreu outra derrota na Câmara. Como foi dito aqui, na véspera não se viu ninguém articulando a aprovação do indicado pelo governo, Sergio Renault, para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Pouco antes da votação, o deputado João Paulo passou 40 minutos na porta do plenário pedindo votos, mas era tarde. Severino e a dobradinha PFL-PSDB já haviam se entendido e repartido as duas vagas. Severino emplacou um nome no Conselho Nacional do Ministério Público e os outros um pefelista para o órgão de controle externo do Judiciário, o CNJ.
Não bastasse isso, depois de tomar café com o presidente Lula, Severino indicou um pefelista para relator da medida provisória do salário-mínimo. Outras derrotas virão, se o governo não enfrentar a urgência de uma reforma em sua gestão política. Por consolo, ontem, a vitória no STF na questão Henrique Meirelles.