Título: URBANIZAÇÃO DA PISTOLAGEM PREOCUPA CEARENSES
Autor: Isabela Martin
Fonte: O Globo, 08/05/2005, O País, p. 19
Em 2004, 63 pessoas foram mortas em execuções em Fortaleza e na região metropolitana, contra 18 vítimas em 2003
FORTALEZA. O crime de pistolagem, comum na região Nordeste, era historicamente identificado a duas grandes vertentes: disputas por terra ou por voto. As áreas rurais eram o palco preferencial das ações de extermínio que se acentuavam em períodos eleitorais em infindáveis acertos de contas entre famílias na corrida pelo poder. Mas levantamentos recentes no Ceará mostram números crescentes de vítimas em Fortaleza e na região metropolitana e apontam para a tendência da urbanização da pistolagem.
O levantamento que a Secretaria estadual de Direitos Humanos do PT acabou de concluir, comparando números de 2003 e 2004, reforça este dado. No ano passado, 63 pessoas foram mortas em execuções com características de pistolagem em Fortaleza e na região metropolitana contra 18 no ano anterior, um crescimento de 250%.
Em Fortaleza, 46 execuções no ano passado
Considerando-se apenas os crimes ocorridos na capital, foram 15 execuções em 2003 e 46 em 2004, 207% a mais. Fortaleza teve o dobro de execuções da região do Vale do Jaguaribe, localizado no centro-sul do estado, um tradicional reduto de pistolagem. Lá os crimes com essas características caíram de 28 em 2003 para 22 no ano passado.
Desde que o levantamento começou a ser feito, em 1997, a incidência dos crimes com características de pistolagem acontecia majoritariamente longe dos grandes centros urbanos. Foi no ano passado que a migração ficou bem caracterizada com 56% das execuções no interior, 33% em Fortaleza e 11% na região metropolitana.
¿ A pistolagem não é mais um crime rural e coronelista. Passou a ser cometida por diversos segmentos e é um instrumento que serve desde aos crimes passionais até ao acerto de contas entre integrantes de gangue ¿ diz o secretário de Direitos Humanos, Regino Pinho.
O aumento do número de vítimas do sexo feminino é outro dado novo. Oito mulheres foram mortas em 2004 em crimes com características de pistolagem, 75% a mais do que no ano anterior, segundo o relatório.
Os crimes de pistolagem seguem um padrão. Os tiros se concentram na cabeça e na região do tórax e são disparados a curta distância. A vítima, sem chance de defesa, costuma ser surpreendida numa emboscada. Normalmente, os pistoleiros usam moto para facilitar a fuga e capacetes para dificultar a identificação. Segundo o relatório, dos crimes cometidos no ano passado, 47% dos matadores usavam motos e capacetes.
Principal característica é a existência do mandante
Mas a principal característica é a existência do mandante, que contrata o assassino mediante pagamento ou promessa de recompensa, sem necessariamente envolver dinheiro. Pode ser apenas troca de favores.
Pesquisadores e estudiosos baseiam-se nessas tipificações para classificar um crime de pistolagem. Ainda assim, existem divergências que esbarram na linha tênue que pode levar a confundir latrocínio, brigas de gangues e justiça com as próprias mãos com pistolagem. É por essa razão que nunca os números apurados pela secretaria ou pelo Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV) coincidem com os da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social.
¿ Nossa visão é sociológica e não apenas jurídica ¿ explica o secretário Regino Pinho.