Título: Prévia eleitoral
Autor: Míriam Leitão
Fonte: O Globo, 10/05/2005, Panorama Econômico, p. 20

O Fórum do Velloso foi ontem palco de uma prévia do debate eleitoral. Os senadores Aloizio Mercadante e Tasso Jereissati discutiram em torno do ponto que estará nos palanques: o aumento dos gastos públicos. Outra discordância exibiu uma fratura que pode ser explorada: Mercadante continuou defendendo a revisão da meta de inflação, mesmo após o ministro Palocci ter dito que isso não acontecerá.

O MINISTRO PALOCCI, QUE ABRIRIA O FÓRUM, ATRASOU-SE E ACABOU FAZENDO O ENCERRAMENTO DO PRIMEIRO DIA. O senador Mercadante foi chamado para abrir:

¿ Me sinto prejudicado ¿ reclamou, avisando que queria fazer o contraponto.

Segundo o senador, a imprensa está passando a percepção errada sobre o trabalho do Congresso. Em seguida, ele listou tudo o que tem sido aprovado no Senado em termos de mudanças econômicas necessárias, da Lei de Falências às PPPs.

Fez depois críticas ao governo anterior:

¿ Tivemos seis anos de déficit comercial e estamos agora com superávits comerciais exuberantes. O governo anterior produziu um déficit em transações correntes somado de US$186 bilhões. Aqui cabe um elogio à política externa, porque metade do nosso comércio é com países em desenvolvimento e é o comércio que mais cresceu ¿ disse Mercadante.

Em seguida, elogiou o ¿exitoso¿ regime de metas de inflação, mas reclamou do seu rigor. Sugeriu que a meta fosse elevada para 5,5% e que lá ficasse.

¿ Em toda a nossa história, só em dois anos tivemos uma inflação mais baixa que isso, em 1946 e em 1998.

O professor Affonso Pastore falou em seguida:

¿ O gasto público cresceu e isso aumentou a demanda agregada. Às vezes, senador Mercadante, é mais o caso de mudar a política fiscal e não a política monetária. Cortes de gastos podem reduzir o peso sobre a política monetária.

Pastore disse ainda que não é a desvalorização que vai resolver os problemas da economia brasileira:

¿ Quem pede câmbio mais depreciado está pedindo arrocho salarial ¿ traduziu.

Raul Velloso trouxe más notícias este ano: aumentou a parcela de gastos obrigatórios dentro dos gastos públicos. Principalmente dentro dos gastos sociais. Os benefícios até um salário-mínimo aumentaram 6,8%, o Loas (benefícios para idosos e deficientes) aumentou 23%, Bolsa Família 66,4% e benefícios acima de um salário-mínimo aumentaram 13,2%. Caíram os investimentos.

¿ Neste ano, o orçamento prevê aumento dos gastos com investimentos, mas eu acho que, como outras despesas não foram cortadas, não haverá esse aumento ¿ avaliou Raul Velloso.

O senador Tasso Jereissati comentou que havia muita desconfiança em relação ao que seria o governo Lula, dado tudo o que o PT falava quando era oposição:

¿ Graças a Deus, o medo foi dissipado no início de 2003. O governo fez isso contra setores do próprio governo que refutavam a visão do ministro Palocci. Deve ter sido difícil para o presidente Lula encarar com tanta naturalidade a manutenção do acordo do FMI ¿ disse, elogiando e estocando.

Jereissati afirmou que o governo foi bem até meados do ano passado, quando, então, foi antecipada a disputa eleitoral.

¿ Houve uma mudança fiscal, sinais de relaxamento, aparelhamento da máquina pública. Quarenta mil funcionários públicos foram contratados, acabando com o esforço feito no governo anterior, que reduziu em 180 mil o número de funcionários. Os gastos sociais aumentaram enormemente. Parece bom, mas gasto social malfeito, descontrolado e açodado é ruim. Não há sistema de gerenciamento, e o nome disso é ineficiência ¿ dizia Jereissati, todo empolgado, quando entrou o ministro Palocci.

¿ Ministro! Estava aqui elogiando sua excelência! ¿ brincou Tasso.

Após os risos, Tasso continuou criticando os 35 ministérios do governo atual.

Quando encerrou, Marcos Lisboa fez uma defesa do governo, mas em termos técnicos.

Mercadante pediu para falar e disse que o governo Fernando Henrique tinha terceirizado alguns serviços e eles contrataram. E fez uma frase que os tucanos sempre diziam em relação aos petistas:

¿ A oposição deveria apresentar uma agenda propositiva.

Tasso pediu para falar um minuto. Enquanto a bola ia de um lado para o outro, o ministro Palocci ria e esperava a vez de falar. Tasso atacou:

¿ Banco Popular do Brasil. Já ouviram falar? Ele emprestou R$1,5 milhão com o setor produtivo, R$6 milhões para o consumo e gastou R$25 milhões com despesa de publicidade e deu um prejuízo de R$46 milhões. Isso é gasto mal-feito ¿ disse o tucano.

O ministro Palocci, na fala e depois na entrevista, deixou claro que não vai mudar a meta de inflação e que o governo não está pensando em nenhuma mudança na política de combate à inflação.

Depois que o ministro saiu, Mercadante voltou a defender modificação da meta de inflação.

O resumo do dia é: o governo está, sim, aumentando gastos e tem divergências internas na política econômica. Isso certamente será explorado pelos adversários na disputa do ano que vem. É cedo para essa briga, mas, infelizmente, ela já começou. E cada lado acusa o outro de ter atirado primeiro.