Título: A QUESTÃO NUCLEAR
Autor:
Fonte: O Globo, 12/05/2005, Editorial/Opinião, p. 6

Pelo visto, a comunidade internacional só afastará definitivamente a ameaça de conflagração nuclear quando puder convencer os países que já têm armas a diminuírem seus estoques, e impedir que novos países adquiram tecnologia e capacidade para fabricá-las. Enquanto insistir apenas na repressão aos que aspiram à condição de potência nuclear, como Irã e Coréia do Norte, é pouco provável que alcance êxito mais que relativo. Haverá sempre margem para acusações de duplicidade política: se EUA, Rússia, China, França e Inglaterra têm, e todo mundo sabe que têm, por que outros países não podem pelo menos se candidatarem a ter?

É importante levar em conta essa ambigüidade fundamental, que compromete qualquer estratégia planetária, no momento em que os 188 signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear se reúnem na ONU para revisar o documento e adotar novas medidas para tornar o mundo mais seguro.

Por razões óbvias, é muito mais fácil, pelo menos em tese, exercer pressão sobre os pretendentes a uma vaga no chamado clube nuclear, do que sobre os sócios fundadores. Geralmente os aspirantes são países menores, controlados por regimes autoritários, que temem ataques de reais ou imaginários inimigos externos, ou que alimentam pretensões de hegemonia regional e usam a ameaça nuclear para fazer chantagem. As ambigüidades políticas e morais da comunidade internacional na questão da proliferação nuclear dificultam a adoção de medidas severas até mesmo contra países mais fracos.

Como esperar que a China obrigue a Coréia do Norte a desistir do seu programa de armas nucleares, se ela mesma nunca demonstrou vontade de reduzir seus estoques? Ou que a União Européia, também com seus arsenais intactos, dê um ultimato ao Irã? Chineses e europeus, é claro, teriam força para enquadrar ovelhas negras como Coréia do Norte e Irã, se o problema fosse só de influência econômica.

O uso pacífico da energia nuclear é hoje reconhecido como trunfo no combate ao efeito estufa ¿ e isso faz da adoção de uma sólida política de não-proliferação pré-requisito para salvar o planeta em mais de um sentido.