Título: Tubarões do tráfico na cadeia
Autor: Ana Cláudia Costa e Natanael Damasceno
Fonte: O Globo, 15/10/2004, O país, p. 14

A Polícia Federal deflagrou ontem a Operação Esteira Livre para desarticular uma quadrilha que enviava entre dez e 60 quilos de cocaína por mês para Portugal, Espanha e Holanda. Foram cumpridos 21 mandados de prisão ¿ um deles numa casa de luxo em São Conrado e outro num apartamento na Avenida Sernambetiba, na Barra ¿ expedidos pelo juiz André Rizzo Molinari, da Justiça federal do Rio. A quadrilha utilizava funcionários de uma empresa que presta serviços ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, para fazer com que a droga não passasse pela esteira de raios X. Entre os presos há dois italianos, um marroquino e um nigeriano. O esquema era uma ramificação da quadrilha, descoberta em 1999, que usava oficiais da Aeronáutica para transportar drogas em aviões da FAB.

A operação, chefiada pelo delegado Hebert Reis Mesquita, da Coordenadoria Geral de Repressão a Entorpecentes da PF de Brasília, teve início ainda de madrugada. Cerca de 210 policiais de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Brasília e Rio se dividiram em 50 carros para cumprir os mandados. Uma equipe do Comando de Operações Táticas (COT), grupo de elite da PF, também foi mobilizada. Além do Rio, policiais fizeram incursões em Cabo Frio, Araruama, São de João de Meriti e Curitiba (onde foi capturado o nigeriano, na única prisão efetuada fora do estado).

De acordo com a PF, a cocaína era embarcada para a Europa em malas por pelo menos quatro funcionários da Sata, que presta serviços à Infraero. Os integrantes do bando marcavam as malas com fitas, fazendo com que a bagagem com cocaína não passasse pela fiscalização, entrando diretamente nos porões dos aviões. Cada funcionário aliciado ganhava US$ 5 mil (cerca de R$ 14,1 mil) por remessa. Na Europa, cada quilo de cocaína era vendido por pelo menos 15 mil euros (aproximadamente R$ 52,5 mil).

Bando atuava há pelo menos 10 anos

O esquema funcionava há pelo menos dez anos. Um grupo de seis pessoas, chefiado por Sônia White, mulher de John White ¿ preso por envolvimento com tráfico em aviões da FAB ¿ era responsável pela administração dos negócios. Um outro grupo financiava a compra da cocaína em países da América do Sul. Segundo Hebert Mesquita, o bando comprava a droga no Peru, na Bolívia e na Colômbia.

Um dos primeiros a ser preso, numa casa de três pavimentos na Ladeira dos Tabajaras, em Botafogo, foi o contador aposentado Wilson Vasconcellos. Com 72 anos e acima de qualquer suspeita, ele era o principal articulador da quadrilha e fazia a ligação entre os financiadores da compra da cocaína, os contatos na Europa, as pessoas que transportavam a droga (chamadas ¿mulas¿) e os funcionários que embarcavam a bagagem. Na casa dele foram apreendidos documentos, celular e uma secretária eletrônica.

Agentes também prenderam, numa casa de luxo na Rua Coronel Ribeiro Gomes, em São Conrado, o empresário Ricardo Dantas Valente. Ele é acusado de ser um dos financiadores da compra de cocaína. Ricardo estava dormindo e chegou a chamar a polícia, ligando para o número 190, dizendo que bandidos com roupas de policiais federais estavam invadindo sua residência. O empresário foi algemado assim que abriu o portão.

Na casa de São Conrado, foram apreendidos computador, celulares e documentos. Em outro endereço do empresário, na Rua Fonte da Saudade, na Lagoa, também foram recolhidos documentos. Na Barra, foram capturados Leonardo dos Santos Aquino e John White Júnior (filho dos traficantes Sônia e John White).

A Sata informou ter colaborado com a PF durante a investigação. A empresa disse ainda que tomará providências para afastar os funcionários envolvidos no esquema.