Título: O LUTO DAS MULHERES POBRES DA CIDADE
Autor: MARIA TEREZA COSTA
Fonte: O Globo, 12/05/2005, Opinião, p. 7
A notícia nem era de primeira página, mas o título foi impactante: ¿Maternidade Leila Diniz fechada para sempre¿. Quantos, na cidade, têm condições para compreender amplamente o significado dessa informação? Quanto tempo levamos para chegar à abertura da maternidade que ganhou o nome expressivo de uma mulher como Leila Diniz e quanto tempo levaremos para tratar a dor e o luto por seu fechamento, duramente definido como ¿para sempre¿?
Não quero falar de políticos, de instâncias de governo e poder público, nem das suas responsabilidades esquecidas em anos de conflitos estimulados por disputas ora partidárias, ora determinadas por projetos pessoais.
O fechamento da maternidade e suas repercussões para o parto e o nascimento na cidade inserem-se neste contexto, mas penso merecer uma atenção especial.
Nos últimos anos da década de 80 já era conhecido o diagnóstico das necessidades de leitos obstétricos e para recém-nascidos no Estado do Rio de Janeiro, sendo verificados um déficit considerável e uma distribuição desigual da oferta. Na cidade do Rio, algumas áreas mostravam situação pior, como exemplos a chamada Zona Oeste do município e as áreas de Jacarepaguá, Barra, Recreio e adjacências.
O Ministério da Saúde abriu a maternidade de Curicica, região onde se concentra uma população particularmente desfavorecida social e economicamente. Pouco tempo depois essa maternidade foi fechada, mas em 1994 houve a municipalização com a reabertura, batizada agora de Maternidade Leila Diniz.
Este ato se traduziu na melhor expressão das prioridades das políticas públicas municipais naquele momento, em que a assistência materno-infantil tinha um grande destaque. A população teve suas demandas atendidas e o exemplo Maternidade Leila Diniz promoveu positivamente em todo o país a política local de atenção ao nascimento, responsabilidade municipal definida em nossa legislação de saúde.
Porém, os leitos da maternidade somente cobriam metade das necessidades da área, considerados o tamanho da população e os parâmetros de planejamento em saúde consagrados. Eram necessárias a expansão posterior dessa cobertura e a adequação definitiva das condições prediais e de instalação da unidade de saúde. Mais ou menos à mesma época, algo em torno de 2001, foram iniciados os projetos para a nova Leila Diniz e para a construção de outra maternidade na Barra da Tijuca, anexa ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, sendo assim possível sonhar com a cobertura plena de leitos para a população da região.
Mas as instalações da Maternidade Leila Diniz começaram a se deteriorar e isso foi assistido passivamente pelos governantes. Disputas de recursos e mudanças de focos na política pública paralisaram as obras necessárias tanto em Curicica quanto na Barra da Tijuca.
E o que vemos agora? Uma maternidade pública fechada e o retrocesso de quase 20 anos no quadro de assistência ao parto na cidade. Triste saber que estamos piores, em termos de oferta na região, do que estávamos ao final da década de 80.
Bom seria que os senhores dos governos federal, estadual e municipal ainda guardassem um pouco de seus antigos ideais e resgatassem a capacidade de negociação que os estimulou na escolha da vida pública como atividade de trabalho, sensibilizando-se para a urgência de soluções neste problema. Que se envergonhassem desse luto que sentimos e sentem muito mais as mulheres pobres da cidade.