Título: Conheça outros casos de remessa para o exterior
Autor: Antônio Werneck
Fonte: O Globo, 15/10/2004, Rio, p. 17
Nos anos 90, o principal fornecedor de cocaína das altas-rodas da sociedade carioca, João Guilherme Estrella, resolveu mandar droga, que obtinha num dos maiores laboratórios de refino da América do Sul, em Rondonópolis (MT), para o exterior. O esquema de Estrella ¿ descrito no livro ¿Meu nome não é Johnny¿, do jornalista Guilherme Fiúza, que conta a história do filho de um alto executivo do extinto Banco Nacional que virou traficante ¿ era engenhoso. Estrella escolheu Leôncio, um violonista clássico, para tratar da logística da operação. Era ele quem cuidava das passagens, das rotas e dos hotéis e supervisionava a ¿mula¿, a pessoa que, de fato, transportava a cocaína. Ela era recebida por Felipe, um brasileiro que trabalhava com publicidade na Holanda e tinha contato com os maiores receptadores do país, membros de quadrilhas russas, israelenses e colombianas.
Toda a droga era enviada para Amsterdã, via Bélgica, dentro de casacos. No livro, Fiúza conta que os casacos ¿eram inteiramente desmanchados e praticamente refeitos com cocaína dentro. O forro era retirado, e em lugar dele introduzidas centenas de saquinhos cheios de cocaína, por sua vez costurados entre si, um a um, como escama de peixe. O novo `forro¿ era ainda revestido de carbono e lã de vidro, para embaçar a fiscalização por raio X, e recebia um spray repelente que afastava os cães farejadores e tinha efeito por no mínimo 24 horas. A vestimenta era então reconstituída¿.
O esquema de Estrella durou um pouco mais de um ano e meio, até ser desarticulado pela polícia. Apesar de não ter conseguido barrar o envio de Estrella nos anos 90, na década de 80 a polícia conseguiu desarticular no nascedouro, em 1984, outro grupo, com a prisão de vários integrantes de uma quadrilha na qual se destacava o nome de Lívio Bruni Júnior, filho do dono de uma rede de cinemas no Rio. O esquema consistia no envio de cocaína para o exterior dentro de latas de sardinhas. O plano não foi levado avante: descoberta a quadrilha, Lívio Bruni Júnior fugiu para o exterior no mesmo ano. Segundo a polícia, Bruni comandava o grupo que fornecia a droga para vários morros do Rio, Região dos Lagos e exterior. Em novembro de 1996, foi preso na Espanha em flagrante de estelionato e deportado para o Brasil. Em 97, foi condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato de um dos membros de sua quadrilha.
A Conexão Nigeriana, até então uma rede desconhecida de tráfico, que enviava cocaína colombiana à Europa e ao Estados Unidos através de Lagos (Nigéria), usando africanos como ¿mulas¿, foi descoberta em 1994. Naquele ano foi preso, em Saquarema, Alex Suyanoff, nascido no Usbequistão. O traficante foi condenado a 25 anos de prisão. Ficou preso apenas cinco anos e fugiu do Brasil. No ano passado, Alex Suyanoff, que voltara ao Brasil, foi preso pela Polícia Federal.
A máfia russa também estaria atuando no Brasil para exportar cocaína para a Europa. O assunto foi mencionado num relatório divulgado em junho do ano 2000, em Washington, pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, um respeitado centro de pesquisa sobre temas internacionais com sede na capital americana. ¿Desde a crise financeira (de agosto de 1998), a maior expansão do crime organizado russo se deu na América Latina, particularmente na Colômbia e, em grau menor, no Brasil¿, diz o informe do centro.
Em 1997, a Interpol montou operação especial para caçar 50 mafiosos italianos que estariam escondidos no Brasil, a maioria no Rio. Segundo os policiais, o país já é a terceira área de operação da máfia, depois da Itália e dos EUA. Pelos dados da Interpol, as quatro principais organizações mafiosas estariam tentando montar uma base comum de operações no Rio, de onde exportariam a cocaína produzida na Colômbia e na Bolívia.