Título: Bando fornecia armas e munição a traficantes
Autor: Antônio Werneck
Fonte: O Globo, 15/10/2004, Rio, p. 17
O contador aposentado Wilson Vasconcellos, preso ontem na Ladeira dos Tabajaras, também fazia contatos com fornecedores da Argentina e do Paraguai, dos quais comprava armas, munição e granadas para revender no Morro do Turano, no Rio Comprido, e nas favelas Parque União e Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, em Ramos. As conexões de Wilson envolviam traficantes de drogas e armas no Paraná. Seus principais clientes eram homens ligados ao bandido Paulo Cesar dos Santos, o Linho, procurado pela Secretaria de Segurança.
O esquema de envio de armas para o tráfico carioca era investigado pela Polícia Federal desde abril do ano passado, quando policiais de Brasília prenderam no Rio o comerciante Osvaldo Ferreira de Oliveira, que morava na Rua Luiz Barbosa, em Vila Isabel. Com ele foram encontradas 50 granadas argentinas FMK-2 e 20 mil balas de fuzil ¿ arma predileta dos traficantes do Rio.
¿ Foi uma operação coroada de êxito. Sem a necessidade de um único tiro ou confronto, desmontamos uma quadrilha que enviava cocaína para fora do Brasil e tinha conexões com o tráfico de armas para os morros do Rio ¿ disse o delegado José Milton Rodrigues, superintendente da Polícia Federal do Rio.
Para o superintendente do Rio, a PF agora precisar mergulhar numa investigação maior, identificando os bens dessa quadrilha e pedindo seu confisco:
¿ O combate ao crime organizado passa por essas medidas: atacar o bolso do traficante, no que chamamos de operação capitalista. Estamos reprimindo a lavagem do dinheiro e combatendo os grandes tubarões da droga.
Itamaraty recebeulista de envolvidos
O delegado Ronaldo Magalhães, da Coordenação Geral de Polícia de Repressão a Entorpecentes (CGPRE), observou que, sem o trabalho de inteligência e o apoio das superintendências da PF do Rio e do Paraná, a operação não daria os frutos que deu:
¿ Levamos dois anos investigando esses caras. Apreendemos armas, munição, cocaína e agora conseguimos pôr a mão nos principais personagens.
Segundo a Polícia Federal, foi preciso seguir os passos dos traficantes e rastrear ações desenvolvidas por Wilson Vasconcelos e Osvaldo para chegar até a Argentina e o Paraguai. Osvaldo, por exemplo, chegou a ser filmado quando chegava a Foz do Iguaçu em 2003, carregando uma mala cheia de dinheiro.
Seguindo o rastro de armas e munição fabricadas na Argentina e enviadas para os morros do Rio, os policiais identificaram até mesmo o envolvimento de militares daquele país no contrabando de armamento. Oficiais estariam desviando armas dos quartéis para enviá-las, com ajuda de militares paraguaios, para traficantes do Rio.
Fuzis automáticos leves (FALs) e granadas FMK2, de fabricação argentina, passaram a ser apreendidos pela polícia fluminense em grandes quantidades em poder de bandidos cariocas. Em dezembro de 2003, a PF enviou uma relação de autoridades militares argentinas ao Itamaraty ¿ os nomes estão sendo mantidos em sigilo. Também conseguiu nomes de militares paraguaios supostamente envolvidas no mesmo esquema. Segundo a Polícia Federal, dois intermediários (na Argentina e no Paraguai) fariam os contatos com os traficantes cariocas. Quem intermediava as operações era Wilson. As armas são negociadas por preços variados. COLABORARAM: Alessandro Soler e Maria Elisa Alves