Título: O PESO DO GOVERNO NA INFLAÇÃO
Autor: Fabiana Ribeiro
Fonte: O Globo, 12/05/2005, Economia, p. 25
Tarifas públicas, além de remédios, sobem e respondem por 50% da alta de 0,87% do IPCA
Os preços administrados pelo governo ¿ como os de energia elétrica, ônibus urbanos e remédios ¿ contribuíram com mais da metade da inflação de 0,87%, em abril, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado no sistema de metas de inflação do próprio governo. A variação ficou acima da alta de março (0,61%) e é a maior desde julho de 2004 (0,91%), informou ontem o IBGE.
O avanço do índice fez os analistas preverem que, na semana que vem, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a Taxa Selic subirá 0,25 ponto percentual ou, na melhor das hipóteses, manterá o atual nível de 19,5% ao ano. Com a alta dos juros básicos da economia ou a manutenção no seu já elevado patamar, o objetivo do BC é conter os reajustes de preços.
¿ Diante de um IPCA elevado, é possível que o Copom mantenha os juros. Até porque não existe qualquer chance de baixa nesse momento ¿ afirma Luiz Roberto Cunha, economista da PUC-Rio.
Meta: Ipea sugere atenção redobrada
Já o economista Marco Antônio Franklin, da Plenus Gestão de Recursos, admite a possibilidade de a Selic subir para 19,75%:
¿ Esse IPCA já estava esperado, com os reajustes das tarifas públicas. É provável um aumento da taxa ou, quem sabe, sua manutenção.
No acumulado do IPCA no ano, especialistas alertam que o índice em apenas quatro meses chegou a 2,68% ¿ mais da metade da meta de inflação fixada pelo governo para 2005 (5,1%, podendo chegar a 7%). Por isso, dizem os economistas, o governo pode esbarrar em dificuldades para atingir sua meta:
¿ Esperamos algo em torno dos 6,5% em 2005, que é, de qualquer maneira, inferior a inflação fechada em 2004 (7,6%). Mas será preciso muita atenção do governo ¿ disse Maria Andréia Parente Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea.
Na opinião de Cunha, da PUC-Rio, porém, o IPCA de abril não compromete a meta de inflação:
¿ Com uma tendência de queda nos próximos meses, o que vejo é que o país fechará o ano com inflação entre 6% e 6,5%.
Além dos preços administrados pelo governo, os alimentos pesaram na inflação. A variação do grupo triplicou: de 0,26% em março para 0,81% em abril. Tiveram alta produtos como batata inglesa (10,44%), leite pasteurizado (4,5%), açúcar cristal (6,75%) e feijão carioca (5,65%).
Os alimentos foram influenciados pelos efeitos da estiagem e da quebra de safras no Sul, entressafras e pelos preços de commodities no mercado internacional, disse Eulina Nunes do Santos, gerente do IBGE. Efeitos, aliás, já superados no mercado atacadista: o IGP-DI, calculado pela FGV, recuou de 0,99% em março para 0,51% em abril graças aos preços mais baixos de alimentos no atacado.
¿ Espera-se que, em maio, junho, o consumidor já encontre preços mais baixos de alimentos. Há perspectiva de inflação menor, mas talvez não seja suficiente para o BC deixar de subir juros. O BC pode considerar o IPCA de 0,87% preocupante. Mais uma vez, haverá alta de 0,25 ponto percentual ¿ disse Elson Teles, economista da Fides Gestora de Recursos.
FGV: inflação pelo IPC-S sobe em maio
Segundo analistas, o IPCA atingiu em abril seu ponto máximo. E a expectativa é de que a inflação ceda nos próximos meses.
¿ O IPCA a 0,87% foi a pior notícia do ano. A partir de agora, a tendência é melhorar. A inflação de 2005 pode ser muito semelhante à de 2003: elevada no primeiro semestre e em queda no segundo ¿ disse Franklin, da Plenus.
¿ Em maio, a inflação pode estar entre 0,50% e 0,60%. Mas ainda terá resíduos de reajuste de energia elétrica em algumas capitais e do aumento do ônibus do Rio ¿ prevê Cunha, da PUC.
Para João Gomes, economista do Instituto Fecomércio, o país está se beneficiando com o real valorizado.
¿ Algumas commodities, que sofrem influências do mercado internacional, deverão ter preços no mercado interno mais favoráveis. O que também vai diminuir as pressões internas de preços altos.
Além do IPCA, outro índice divulgado ontem subiu. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), da FGV, registrou alta de 1,03% no mês encerrado em 7 de maio, contra 0,88% na semana anterior. Esta foi a maior taxa desde fevereiro de 2004 (1,22%). O motivo principal foi o item alimentação, que respondeu por 38% do IPC-S.
¿ Mas em maio poderemos registrar queda de preços nos alimentos ¿ disse André Braz, da FGV.