Título: `A SEQÜELA DA TORTURA NÃO SE APAGA NUNCA¿
Autor: Flavio Freire
Fonte: O Globo, 15/05/2005, O País, p. 14

Presidente da Associação de Mães de Adolescentes em Risco vive sob ameaça de morte por denunciar maus-tratos na Febem

Mãe de sete filhos, da presidente da Associação de Mães de Crianças e Adolescentes em Risco, Conceição Paganele, de 49 anos, vive sob ameaça de morte. À frente de um grupo de 200 mães que buscam melhores condições para meninos e meninas que lotam as unidades da Febem, ela diz que foi perseguida na rua e recebe telefonemas diários para que deixe de denunciar os maus-tratos sofridos pelos internos. Desde que o seu filho de 15 anos foi preso por roubo pela primeira vez, em 1998, Conceição decidiu lutar pelos direitos dos internos da Febem.

O que tem provocado tantas rebeliões na Febem?

CONCEIÇÃO PAGANELE: Os menores não têm atendimento técnico, aula ou saúde. Só resta se rebelar. Chega um momento em que muitos estão doentes e não têm sequer uma enfermeira. É por isso que eles vão para cima dos telhados. Os meninos não têm sabonete ou produto para limpar banheiro.

Cerca de mil funcionários foram demitidos há alguns meses. A situação não melhorou?

CONCEIÇÃO: Quem está lá dentro são pessoas a quem temos muitas restrições. E muitos funcionários estão voltando. Eles nem bem voltaram e já mostram toda a truculência.

A senhora coordena um grupo de 200 mães que trabalham voluntariamente nessas unidades. De que forma isso ajuda?

CONCEIÇÃO: Ajuda a inibir a tortura. Tanto é verdade que assim que eles (funcionários) partem para medidas truculentas a primeira ordem é deixar todo mundo de fora.

Quais têm sido as práticas de tortura denunciadas?

CONCEIÇÃO: Espancamento, principalmente. Uma ação que tinha parado desde janeiro. Mas que retomou ontem (na quinta-feira). Isso tinha acabado depois da prisão de 16 pessoas que participaram de uma sessão de espancamento na unidade da Vila Maria. Mas com novos comandos, a segurança está agredindo os meninos.

A senhora acredita que a Febem pode reabilitar alguém?

CONCEIÇÃO: Não, principalmente nos moldes em que a instituição está. Precisamos separar os meninos.

A senhora recebe ameaças?

CONCEIÇÃO: Sim. Servidores demitidos me seguiram duas vezes. Já jogaram uma caminhonete em cima de mim dentro da unidade do Tatuapé. E recebi diversos telefonemas anônimos.

A senhora atribui a violência desses meninos a todos esses problemas nas unidades?

CONCEIÇÃO: É o que está guardado dentro deles, mas ninguém trata. A seqüela da tortura não se apaga nunca.