Título: Sinais contrários
Autor:
Fonte: O Globo, 16/05/2005, Opinião, p. 6

Assim como já aconteceu com a dívida externa e a distribuição de renda, os juros ¿ ou a política monetária, pela qual a taxa básica do mercado é fixada ¿ dominam o centro do debate econômico. A complexidade do tema não impede que haja debates políticos acalorados em torno dele. Há até quem vocifere contra os juros como se fosse possível baixá-los por decreto, sem se produzir graves distorções no funcionamento da economia.

O grande mérito do governo do PT foi, apesar de todo o discurso dos tempos de oposição, ter entendido que política monetária é coisa séria. Por isso, o governo pôde debelar, no primeiro ano de poder, a grave crise engendrada ainda na campanha de 2002. Uma política monetária dura, articulada com uma adequada rigidez fiscal, salvou o país de séria crise.

O aquecimento da economia, no entanto, forçou o BC a inverter a curva dos juros e voltar a aumentá-los a partir do segundo semestre do ano passado. O debate reacendeu, agora com novos ingredientes. Na sua entrevista coletiva, Lula foi ao ponto, ao dizer que toda a responsabilidade pelo combate à inflação não pode ser jogada sobre os ombros do BC. Ou seja, não é admissível que o arsenal de armas antiinflação se resuma aos juros.

O presidente tem razão. E cabe a ele praticar o que defendeu, determinando um corte nos gastos e, como decorrência, um aumento no superávit primário para a faixa dos 5% do PIB. Trata-se de acabar com uma esquizofrenia: enquanto o BC tenta executar a função de defensor do poder aquisitivo da moeda, despesas executadas pela máquina burocrática produzem efeito contrário, ao fornecer combustível para a inflação.