Título: PENHOR DA CAIXA IGNORA CONCORRÊNCIA E MIRA R$4,5 BILHÕES EM NEGÓCIOS
Autor: Vagner Ricardo
Fonte: O Globo, 16/05/2005, Economia, p. 16
Banco prevê expansão de 11% este ano, apesar da queda na cotação do ouro
O preço do ouro costuma seguir a variação do dólar. Neste momento de moeda americana em baixa, essa é uma má notícia para quem pensa em vender peças de ouro. Mas isso não assusta quem recorre ao penhor da Caixa Econômica Federal, já que a instituição prefere não acompanhar o vaivém dos preços domésticos ou internacionais.
Graças a essa política de preços, a Caixa movimentou R$4,09 bilhões em empréstimos, relativos a 9,25 milhões de contratos de penhor, em 2004. Para este ano, o banco mantém um prognóstico positivo: a meta é crescer 11%, emprestando um total de R$4,5 bilhões.
O superintendente nacional da Caixa, José Humberto Maurício de Lira, não acredita que os empréstimos consignados (com desconto em folha de pagamento) possam afetar o desempenho do penhor, apesar de estarem atraindo um grande número de tomadores graças a suas taxas de juros reduzidas. Segundo Lira, nos quatro primeiros meses deste ano foi aplicado no penhor R$1,43 bilhão, 3,44% a mais que no mesmo período de 2004.
Cotação está abaixo da média do mercado, de R$34
Esse crescimento mostra que quem procurou o penhor da Caixa não se importou com o fato de o preço do grama do ouro não acompanhar o mercado internacional. O último reajuste da cotação feito pelo banco foi no ano passado: o grama do ouro de 18 quilates passou para entre R$15 e R$22, dependendo do tipo de jóia e de seu estado de conservação.
Além disso, a cotação da Caixa fica abaixo da média no mercado, atualmente entre R$33 e R$34. Segundo o operador da corretora Spinelli Sílvio Alface, a tendência é de que o preço do ouro, influenciado pelo dólar em baixa, continue a cair no mercado doméstico. Ano passado, o teto alcançado foi de R$40 o grama.
- Somos conservadores na fixação dos preços para garantir a liquidez deste mercado, taxas de juros baixas e pouco risco para a operação - conta Lira.
Contratação de operação dispensa burocracia
O superintendente da Caixa explica que a cotação mais baixa do grama permite que as jóias leiloadas por falta de pagamento sejam vendidas com a recuperação total do crédito - e até um pouco mais. O lucro residual (chamado saldo de leilão) é devolvido ao ex-proprietário.
O penhor ocupa mesmo um lugar cativo entre as alternativas financeiras e é a mais antiga e tradicional operação de crédito da Caixa. O penhor nasceu junto com o banco há 144 anos de idade, conta Lira. De quebra, a operação financeira é a menos burocrática. Basta apresentar carteira de identidade, CPF, comprovante de residência e, lógico, as jóias no guichê do banco. No final, o cliente leva 80% do valor de avaliação do bem, não podendo superar R$50 mil por CPF.
- O penhor, para mim, é uma grande salvação. É uma opção natural nos momentos de aperto financeiro. Sempre que preciso venho empenhar as jóias e, quando é possível, venho resgatá-las - diz Antônio Ricardo de Souza, o Rhichahs, intérprete de escola de samba no Rio de Janeiro.
Rhichahs, que já foi puxador de samba de escolas como Salgueiro e Portela (hoje está na União de Jacarepaguá), conta que, após o carnaval, sua renda tradicionalmente tem uma queda acentuada. Por isso, de tempos em tempos ele procura o penhor para saldar dívidas ou pagar despesas inesperadas. Na última sexta-feira, ele foi à agência da Caixa em Madureira para contratar mais uma operação, cujo valor não quis informar. Rhichahs espera ter sobras para resgatar as jóias. Se não for possível, vai renovar a cautela.
Mais agências farão operação
Caixa quer penhor disponível em mil cidades
A Caixa, única instituição financeira autorizada (desde 1934) a realizar operações de penhor, planeja crescer ainda mais nos próximos anos. As operações de penhor hoje estão disponíveis em 345 unidades e em 187 cidades. O superintendente nacional da Caixa, José Humberto Maurício de Lira, disse que idéia é aumentar para 500 unidades dentro de um ano. E, no fim de 2007, a meta é estar presente em mil cidades, fortalecendo a presença em todos os estados.
- Estamos expandindo para chegar a todas as capitais e pelo menos na segunda cidade mais importante de todos os estados - disse Lira.
O plano prevê 500 pontos de atendimento nas regiões Sudeste e Sul, onde as operações de penhor têm mais tradição. Só este ano, serão abertos 85 postos de penhor no país.
Mais de sete mil empregados da Caixa se inscreveram para participar de um concurso interno em 2004 para preparar novos avaliadores para os postos de penhor.
Além disso, a Caixa está implantando um sistema em ambiente intranet integrado com a rede do banco. O principal benefício será permitir que os clientes renovem ou liquidem o penhor em qualquer uma das duas mil agências bancárias da Caixa. O sistema já foi implantado em 118 delas.