Título: Em nome do padrinho
Autor: Adriana Vasconcelos
Fonte: O Globo, 17/05/2005, O País, p. 3
Afilhado do PTB nos Correios acusa presidente do partido e leva oposição a pedir uma CPI
BRASÍLIA e SÃO PAULO
As denúncias de corrupção na Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) envolvendo o presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), e apadrinhados do partido serão investigadas em diversas frentes. A oposição se uniu no Congresso em defesa da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Mista, abrangendo não só o flagrante de recebimento de propina pelo ex-chefe de Departamento de Contratação da ECT Maurício Marinho e o suposto envolvimento de Jefferson no esquema de corrupção, revelado pela revista ¿Veja¿, como outras estatais citadas na reportagem, para as quais o PTB teriam feito indicações, como Infraero, Eletronorte e Petrobras.
Antecipando-se à pressão da oposição, o governo determinou na noite de sábado, dia em que a revista começou a circular, a abertura de inquérito na Polícia Federal e de uma sindicância interna do Ministério das Comunicações, pasta responsável pelos Correios. E, ontem, foi determinada também uma investigação na Controladoria Geral da União (CGU).
¿É extremamente lamentável¿, diz Sarney
Em nota, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse que não aceita o que classificou de farsa montada pelo governo: ¿O PSDB não aceita que o governo procure meramente desviar a atenção para o PTB, como se fosse caso isolado, quando tudo indica tratar-se de corrupção que se alastra por vários setores. Não aceita a farsa de o governo Lula estar investigando o governo Lula. A apuração deve ser feita pelo Ministério Público e pelo Congresso mediante CPI¿.
O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), apoiou:
¿ A única maneira de pôr um ponto final nas denúncias é uma CPI mista, sem qualquer prejulgamento. Os parlamentares que nada têm a ver com o assunto assinarão o requerimento. E os partidos que não indicarem representantes estão sob suspeita.
Ex-presidente do Senado e aliado do governo, José Sarney (PMDB-AP) afirmou:
¿ A CPI é uma prerrogativa do Congresso. É uma maneira de fiscalização. O episódio foi extremamente lamentável. O governo deveria tomar providências enérgicas para apurar o caso. Foi ruim para o governo e ruim para a classe política ¿ disse ele, em São Paulo.
Dirceu: Jefferson já disse não ter nada com isso
Já o chefe da Casa Civil, José Dirceu, disse que Roberto Jefferson declarou que nada tem a ver com as denúncias e que está disposto a dar todas as informações necessárias:
¿ Não concordo com CPI. Não se pode pegar este caso e julgar os Correios, pois é uma coisa isolada. A Corregedoria e a PF já estão investigando ¿ disse Dirceu.
Na mesma linha, o o presidente nacional do PT, José Genoino, não aprovou o pedido de CPI feito pela oposição:
¿ Já há uma comissão de sindicância para investigar a denúncia. A PF também já está investigando. Além disso, a próprio Câmara, através do Conselho de Ética, pode investigar. Também o próprio PTB está prestando os esclarecimentos necessários. Todas as providências estão sendo tomadas ¿ argumentou.
Mas para o petista Antonio Carlos Biscaia (RJ), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, os fatos são graves e exigem a apuração por uma CPI.
¿ Defendo apuração em todas as instâncias. Tenho segurança de que o Ministério Público fará seu trabalho, mas defendo também uma CPI ¿ disse Biscaia, ressaltando que na gravação há indícios de que o mesmo esquema de corrupção possa estar ocorrendo em empresas como a Petrobras e a Eletronorte, onde também houve indicações políticas.
¿ Não tomarei iniciativa de uma CPI, mas assinarei qualquer requerimento que venha a ser apresentado, mesmo se for pela oposição. Os fatos são graves e não se trata de questão político-partidária, mas de princípios e valores éticos.
Na Câmara, a oposição também tentará colher assinaturas para garantir a investigação parlamentar: se não for criada a CPI Mista proposta pela oposição do Senado, pode sair uma da Câmara.
¿ O governo deve explicação ao país. O PFL quer explicações do governo e quer uma CPI para investigar os Correios ¿ disse Rodrigo Maia (RJ), líder do PFL na Câmara.
¿ Vamos propor uma CPI para investigar a quadrilha que existe nos Correios ¿ disse Alberto Goldman, líder tucano na Câmara.
Mas os partidos da base aliada, tendo à frente o PT, resistem. Os líderes disseram que vão consultar as bancadas, mas argumentam que é preciso saber se as investigações estão sendo feitas pelos órgãos competentes e esperar a defesa dos acusados, principalmente a do deputado Roberto Jefferson.
¿ O PSB não se furtará a apoiar a investigação, mas não vamos dar espaço para que a oposição faça política com o caso, principalmente se a CPI não for necessária ¿ disse o líder do PSB, Renato Casagrande (ES).
O líder do PP, deputado José Janene (PR), foi um dos poucos que defenderam diretamente Roberto Jefferson:
¿ Não dá para fazer uma CPI em função de um desclassificado. É um bagrinho, um malandrinho usando o nome do Jefferson.
PF vai apurar com rigor, diz ministro da Justiça
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse ontem que um inquérito da Polícia Federal vai apurar com rigor as denúncias de corrupção envolvendo o ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios Maurício Marinho porque ¿o governo Lula é intransigente com a corrupção¿. No Congresso, coube ao líder do PT no Senado, Delcídio Amaral (MS), fazer a defesa do governo.
A decisão de ordenar imediatamente a investigação pela PF ¿ o inquérito foi pedido na noite de sábado, quando o governo tomou conhecimento da reportagem da ¿Veja¿, e aberto ontem ¿ faz parte da estratégia do Planalto de mostrar agilidade.
¿ Pior que a corrupção é a corrupção impune. Mandamos instaurar inquérito na PF, para apurar de maneira ampla e profunda as denúncias ¿ disse o ministro.
Da tribuna do Senado, Delcídio Amaral argumentou que o flagrante de corrupção representa um fato isolado de um chefe de departamento, já afastado do cargo. Depois, em entrevista, Delcídio defendeu indiretamente o PTB ¿ sem citar Roberto Jefferson ¿ salientando que o episódio não deve levar o governo a suspeitar de todas as indicações do partido para cargos federais.