Título: O INCÔMODO RUGIDO DO TIGRE
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 18/05/2005, Economia, p. 23
Exportações da China inundam UE e EUA, que atacam moeda artificialmente desvalorizada
A máquina exportadora chinesa sofreu ontem um bombardeio duplo: a União Européia (UE) ameaçou com sobretaxas e os Estados Unidos voltaram a pedir a flexibilização do yuan, afirmando que podem classificar a China como parceiro comercial manipulador do câmbio. As indústrias européia e americana se queixam de que as exportações chinesas só são extremamente baratas devido ao yuan artificialmente desvalorizado - a taxa é fixa em 8,28 yuans por dólar.
Em Bruxelas, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, deu à China um ultimato para que o governo de Pequim freie suas vendas mundiais de tecidos e roupas e ameaçou impor sobretaxas aos produtos chineses. Atendendo a pedidos de sete países, a UE vai investigar as vendas chinesas de tecidos para o bloco, seguindo decisão idêntica dos EUA, tomada na última sexta-feira.
- Em vista dos problemas provocados pelas exportações chinesas, consultas formais precisam ser feitas imediatamente - disse Mandelson.
As vendas da China para Grã-Bretanha, Espanha, Holanda, Itália, Alemanha, França e Bélgica aumentaram de US$5 bilhões, no primeiro trimestre do ano passado, para US$12,3 bilhões este ano. Já as exportações de tecidos e roupas chinesas para os EUA cresceram 63% no mesmo período. Em alguns itens, como roupas íntimas, calças de algodão e camisas de tricô, o salto foi de 2.000%.
Tesouro: ninguém manipulou câmbio
O Tesouro americano disse ontem em seu relatório semestral que nenhum dos grandes parceiros comerciais dos EUA manipulou seu câmbio no segundo semestre de 2004. Mas afirma que "as atuais políticas chinesas provocam grandes distorções e representam um risco para a economia da China, seus parceiros comerciais e o crescimento econômico global". O Tesouro afirma que se Pequim não mudar sua estratégia o país será classificado como manipulador cambial.
O presidente George W. Bush também partiu para o ataque. Ele disse que Pequim deveria agir de acordo com as regras de comércio globais e afirmou que o novo representante de Comércio dos EUA, Rob Portman, vai combater a pirataria na China.
Para muitos senadores americanos, o relatório não foi duro o suficiente com a China. Mas o secretário do Tesouro, John Snow, disse que a mensagem era clara.
- Ela diz: "Mexa-se, tome uma atitude significativa para se adequar às condições do mercado" - afirmou Snow, ressaltando, porém, que cabe aos chineses julgar as condições de sua economia. - Mas a mensagem é que (a ação) deve ser significativa. Deve ser algo que o mundo possa ver que a China fala sério em adequar sua moeda à oferta e demanda do mercado.
A 9ª edição do Fórum Global da revista "Fortune", que se realiza em Pequim, também foi palco de críticas ao yuan artificialmente desvalorizado. A resposta da China, na presença de cerca de 500 altos executivos das maiores multinacionais do mundo, foi que nada mudará em sua política de câmbio ou de comércio exterior.
- O governo da China vai brigar contra a imposição de sobretaxas sobre os tecidos chineses na Organização Mundial do Comércio (OMC). A reação americana e européia ao fim das cotas é uma traição ao espírito do livre comércio defendido pela OMC - afirmou Chong Quan, porta-voz do Ministério do Comércio da China.
- Ainda que o governo chinês esteja disposto a aperfeiçoar os seus instrumentos financeiros de regulação macroeconômica, não vamos fazer uma mudança drástica no yuan - afirmou o presidente do Banco Popular da China, o BC do país, Zhou Xiaochuan.
Ainda assim, a China começa hoje a usar uma cesta de moedas mais ampla para fixar seu câmbio, o que muitos vêem como o primeiro passo para uma flexibilização do yuan.
(*) Com agências internacionais
Legenda da foto: ZHOU XIAOCHUAN, do BC chinês: nada de mudança drástica