Título: DILEMA NA LUTA CONTRA O TERROR
Autor:
Fonte: O Globo, 18/05/2005, O Mundo, p. 32

EUA detêm cubano procurado por Fidel e Chávez por atentados, mas extradição é incerta

Pivô de uma crise que contrapõe os EUA a Cuba e Venezuela, o cubano Luis Posada Carriles foi preso ontem na Flórida, ao fim de um dia marcado por desdobramentos que evidenciaram sua complicada situação. Acusado de vários atos de terrorismo por Caracas e Havana e há dois meses clandestino em solo americano, Posada rompera o silêncio para anunciar que poderia retirar o pedido de asilo feito aos EUA em abril, por meio de seu advogado. Enquanto isso, o presidente Fidel Castro liderava na capital cubana uma manifestação de um milhão de pessoas para pedir sua prisão, e a Venezuela reforçava seu pedido à Casa Branca para extraditá-lo.

Para o presidente George W. Bush, a presença de Posada nos EUA se tornou um dilema sobre como conciliar sua luta contra o terrorismo com as exigências de dois países cujas políticas rejeita. Ex-agente da CIA (agência de inteligência americana) e há longo tempo um ativista anti-Cuba, Posada já confessou envolvimento em atentados contra hotéis em Havana em 1997, um dos quais causou a morte de um turista italiano. Em 1985, escapou de uma prisão na Venezuela, onde era acusado de participação num atentado a bomba que derrubou um avião em 1976, matando 73 pessoas. Em 2000, foi preso no Panamá, por planejar um atentado contra Fidel, mas libertado em agosto do ano passado, graças a um indulto concedido pelo governo.

Ele diz que desde então foge de agentes cubanos. Em março, entrou clandestinamente em solo americano, pela fronteira com o México. No mês seguinte, seu advogado, Eduardo Soto, apresentou o pedido de asilo. Logo, Fidel pediu sua prisão e acusou a Casa Branca de hipocrisia, por dizer que combate o terrorismo e manter um terrorista solto no país. Por sua vez, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez - aliado de Fidel e feroz crítico dos EUA - pediu a extradição de Posada, que tem nacionalidade venezuelana. Autoridades americanas diziam que tentavam localizá-lo. Com a prisão de Posada ontem, aumentou a pressão sobre Bush.

- A Casa Branca enfrenta um dilema, porque de um lado não quer entregar Posada a países antagonistas, seja Cuba ou Venezuela, mas tampouco é aceitável deixá-lo simplesmente em Miami - disse Dan Erickson, especialista em Cuba do centro de análises Diálogo Interamericano. - A pergunta é se os EUA consideram o terrorismo contra Cuba diferente de outros tipos de terrorismo contra os quais lutam.

Maior campanha de Fidel desde a do menino Elián

Aos 77 anos, Posada rompeu o silêncio com uma entrevista ao "Miami Herald" publicada ontem, na qual admitia retirar o pedido de asilo. No mesmo dia, faltou a uma entrevista com autoridades de imigração nos EUA para tratar do pedido. Seu advogado disse que ele estava doente, mas convocou a imprensa americana para uma entrevista coletiva na qual o cubano afirmou:

- Vivi durante 30 anos no mundo clandestino. Se meu pedido de asilo político causar problemas aos EUA, eu o retirarei.

Horas depois, foi preso quando tentava deixar o país. O Departamento de Segurança Interna disse que, por lei, teria 48 horas para tomar uma decisão sobre sua situação. Mas deixou claro que a detenção se devia a leis de imigração, e não a acusações de terrorismo. Além disso, assinalou que os EUA não removeriam qualquer pessoa para Cuba ou "países que estejam atuando em benefício de Cuba", sugerindo uma rejeição ao pedido de extradição da Venezuela.

Em Havana, manifestantes caminharam seis horas para exigir a prisão de Posadas. "Bush, fascista, capture o terrorista", gritaram. Em sua primeira passeata desde que fraturou um joelho numa queda em outubro, Fidel, percorreu 800 metros à frente da multidão e discursou:

- O terrorismo foi criado e desenvolvido por diferentes governos e serviços especiais dos EUA, e seus autores foram treinados por eles.

Nas últimas semanas, Fidel foi à TV 16 vezes para falar sobre Posada, objeto de sua maior campanha desde a que cercou há cinco anos o menino Elián González, sobrevivente de um naufrágio em que sua mãe morreu quando o levava para os EUA sem o consentimento do pai. Elián acabou sendo levado de volta a Cuba.

Em Caracas, o ministro do Interior, Jesse Chacon, pediu ontem a Washington que honre um tratado bilateral de extradição.

- Este senhor é um terrorista e está vivendo em território americano com o conhecimento de um governo que luta contra o terrorismo - disse.

"A Casa Branca enfrenta um dilema porque não quer entregar Posada a países antagonistas, seja Cuba ou Venezuela, mas tampouco é aceitável deixá-lo em Miami"

DAN ERICKSON

Analista do Diálogo Interamericano

BOXE EXPLICATIVO

> Uma vida contra Fidel

MIAMI. O cubano Luis Posada Carriles dedicou boa parte da vida a combater Fidel Castro. A seguir, principais momentos:

15/2/1928: Nasce em Cienfuegos.

1961: Foge para o México e depois para os EUA. Treina com a CIA para o desembarque na Baía dos Porcos.

1963: Serviço militar nos EUA.

1964/1965: Envolve-se em atividades anticubanas em EUA, República Dominicana e Porto Rico. Trabalha como agente da CIA a partir de 1965.

1967: Transfere-se para a Venezuela e chega a chefe da contra-espionagem.

1976: Avião cubano explode sobre as Bahamas, matando 73 pessoas. Relatórios cubanos, venezuelanos e americanos apontam seu envolvimento. É preso na Venezuela.

1985: Escapa da prisão.

1986: Teria colaborado com os EUA para abastecer rebeldes na Nicarágua.

1997: Atentados a bomba a hotéis em Havana matam um turista. Cuba os atribui a Posada, que admite mas volta atrás.

17/11/2000: Fidel denuncia um plano para assassiná-lo no Panamá. Posada e 3 homens são presos e condenados.

2004: A presidente Mireya Moscoso, do Panamá, perdoa-o.

Março de 2005: Entra nos EUA.

13/5/2005: Venezuela pede extradição.

Legenda da foto: EM HAVANA, a marcha pela prisão de Luis Posada Carriles que reuniu um milhão de cubanos, liderados por Fidel Castro (no detalhe em cima) em sua primeira passeata desde outubro, quando fraturou o joelho. Ao lado, Carriles, que acabou sendo detido na Flórida, depois de dois meses clandestino nos EUA