Título: SUSPEITO JULGADO POR MASSACRE EM BESLAN
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Fonte: O Globo, 18/05/2005, O Mundo, p. 33
Protestos tumultuam julgamento do sobrevivente do grupo que invadiu escola
VLADIKAVKAZ, Rússia. Sob fortes medidas de segurança, a Justiça russa começou ontem a julgar o único militante checheno capturado vivo na operação para libertar mais de mil reféns numa escola na cidade de Beslan, na república russa de Ossétia do Norte, em setembro de 2004. A ação resultou na morte de 330 pessoas - metade delas crianças. Mas protestos de parentes de vítimas obrigaram o juiz a suspender a audiência, que deve ser retomada amanhã.
A promotoria pede prisão perpétua para Nur-Pashi Kulayev, um carpinteiro checheno de 24 anos, identificado como um dos 32 seqüestradores que exigiam a retirada dos russos da república separatista da Chechênia. Ele enfrenta nove acusações, entre elas terrorismo, seqüestro e homicídio. Kulayev admitiu participar do seqüestro que chocou o mundo, mas nega ter matado qualquer pessoa.
- Não matei ninguém. Embora tivesse uma metralhadora, só atirei para o alto - disse em declarações anteriores.
Kulayev parecia assustado ao ser levado por seis guardas para a Suprema Corte de Vladikavkaz, capital da Ossétia do Norte. Numa espécie de gaiola, onde ficam os réus, permaneceu impassível, enquanto a promotoria lia a longa lista de vítimas.
- Tudo o que eles estão lendo hoje nós vimos com nossos próprios olhos - disse Lyudmila Dzegoyeva, que esteve entre os mais de mil reféns mantidos num ginásio, sob a mira dos seqüestradores.
Parentes de vítimas ergueram retratos durante a audiência. Muitos disseram que funcionários públicos corruptos incapazes de evitar o massacre também deviam ser punidos. Pelo menos 40 parentes de vítimas conseguiram entrar na corte, lotada. O acusado respondeu às perguntas com sussurros.
- Quero olhar ele na cara e ver se é humano ou não - disse Liza Matzgoyeva, de 75 anos, que perdeu o filho de 34 anos na tragédia.
O réu foi achado logo depois da matança escondido embaixo de um caminhão, perto da escola. Na época, disse que cumpria ordem dos líderes rebeldes chechenos Shamil Basayev e Aslan Maskhadov, morto meses atrás.
Como a Rússia decretou moratória à pena de morte, Kulayev deve ser condenado à prisão perpétua. O julgamento deve durar meses. A polícia isolou todas as ruas de acesso à Suprema Corte.
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