Título: NOVA DOSE DE JUROS
Autor: Enio Vieira, Patricia Eloy e Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 19/05/2005, Economia, p. 23

BC sobe Selic para 19,75% e taxa real do país é mais que o dobro da 2ª maior do mundo

O Banco Central (BC) contrariou a expectativa de parte do mercado financeiro de que terminaria o ciclo de alta nos juros e decidiu ontem elevar, pelo nono mês seguido, a taxa básica (Selic) para segurar a inflação. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou os juros de 19,5% ao ano para 19,75% - o maior nível desde os 20% ao ano de setembro de 2003. Com a alta de ontem, os juros reais brasileiros (descontada a inflação) atingiram 13,6% ao ano, mais que o dobro do segundo colocado no ranking global, a Turquia, que tem juros reais de 6,6% ao ano.

Um dos motivos para mais uma elevação está na estimativa da inflação feita por economistas de mercado, que subiu nas últimas 11 semanas e se afasta da meta de 5,1%, fixada pelo governo para 2005. A previsão média do IPCA passou, na última semana, de 6,3% para 6,39%.

A nota divulgada após a reunião repetiu a de meses anteriores: "Dando prosseguimento ao processo de ajuste da taxa de juros básica iniciado na reunião de setembro de 2004, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a Selic para 19,75% ao ano, sem viés".

O diretor do Departamento de Economia do Centro de Indústrias de São Paulo (Ciesp), Boris Tabacof, disse que a decisão do Copom foi "uma desgraça" e buscou apenas uma meta de inflação irrealista:

- O Copom desconsiderou que números do primeiro trimestre já mostram acomodação da produção industrial e do nível de emprego. Com a meta de 4,5% (para 2006), que deve ser ratificada em junho, corremos o risco de um novo aperto na política monetária, o que reduziria a projeção de crescimento em 2005 e comprometeria o desempenho em 2006.

Endividamento deve subir R$1,278 bi

O aumento de 0,25 ponto percentual terá um custo adicional para a dívida pública - metade dela corrigida pela Taxa Selic. A alta resultará num gasto aproximado de R$1,278 bilhão nos próximos 12 meses.

Para o economista Joaquim Elói Cirne de Toledo, professor da USP, o BC voltou a errar na mão.

- Não vejo sentido em nova alta. Há meses o BC sobe os juros, e a expectativa de inflação sobe junto, numa prova de que a política monetária está equivocada. Não sei o que o Copom vê que justifique juro real superior a 13% ao ano. Essa é uma taxa incoerente com um país que pretende atingir o crescimento sustentado - critica Toledo, que prevê desaceleração da inflação nos próximos meses. - Tenho receio de que esta não tenha sido a última alta do ano. Infelizmente, só quando o país parar de crescer vão perceber o estrago que causaram na economia.

Alex Agostini, economista da GRC Visão, faz coro com Toledo e diz ser impossível prever hoje se o ciclo de altas da Selic chegou ao fim.

- Prefiro acreditar que sim, mas o BC é imprevisível. Isso só cria instabilidade, além do ônus já conhecido da nova alta dos juros: retração das taxas de emprego, aumento do capital especulativo e possível redução das projeções de crescimento.

O governo mantém a estratégia de defender a política de juros do BC. No café da manhã com deputados governistas e de oposição ontem no Palácio do Planalto, o presidente Lula disse que "bravata na economia não dá certo" e voltou a criticar planos econômicos de governos anteriores, afirmando que "até hoje pagamos o preço do Plano Cruzado".

O novo aumento da Selic deve agravar o quadro de desaceleração do ritmo da economia, na avaliação de empresários e sindicalistas. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, afirmou que o BC "abusa na intensidade do tratamento" sem esperar pelos resultados da alta dos juros. Skaf frisou que os juros não deveriam ser o único instrumento contra a inflação.

- Até mesmo o presidente Lula reconheceu ser este um dos principais problemas de sua administração, mas o BC insiste mesmo assim - disse Skaf, acrescentando que a indústria tem crescimento inferior a 1% desde setembro de 2004.

Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, a decisão aumenta muito as chances de que o ritmo de queda da atividade econômica se acelere. Para o presidente da Federação do Comércio do Rio, Orlando Diniz, a nova elevação nos juros é um "desestímulo aos empresários". Já o presidente da Fecomércio São Paulo, Abram Szajman, voltou a cobrar o corte nos gastos do governo federal.

Centrais sindicaiscriticam Copom

As centrais sindicais também criticaram. A CUT pediu a ampliação do Conselho Monetário Nacional, hoje só integrado pela equipe econômica. Para a Força Sindical, o governo adota uma política recessiva:

- A desastrada decisão do Copom compromete todo o segundo semestre do ano - disse o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva.

Com a nova Selic, a taxa média de juros cobrada no crédito ao consumidor deve passar de 7,65% para 7,67% ao mês - 142,74% ao ano, segundo dados da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). No crédito para empresas, o juro deve passar de 4,48% para 4,50% ao mês - 69,59% ao ano.

A nova alta levou a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados a convidar o presidente do BC, Henrique Meirelles, para discutir em audiência pública as razões da elevação dos juros.