Título: Destaque que envergonha
Autor: Fernando Duarte
Fonte: O Globo, 21/05/2005, O País, p. 3
Desmatamento recorde da Amazônia repercute no exterior e vira manchete do `Independent¿
A mídia britânica não mediu palavras para noticiar a divulgação do segundo maior índice de desmatamento da História na Amazônia. Se na quinta-feira houve duras críticas por parte do jornal ¿Financial Times¿ e a rede de TV BBC (que dedicou amplo espaço para o assunto em seu canal 24 horas, com direito até a uma proposta de boicote à soja brasileira por parte do grupo ambientalista Amigos da Terra), ontem foi a vez do ¿Independent¿. O principal jornal britânico em questões ambientalista dedicou nada menos do que sua capa ao desmatamento na Amazônia, com grande foto de uma área da devastação e a manchete ¿O estupro da floresta¿.
Segundo levantamento divulgado quarta-feira pelo governo Lula, o desmatamento na Amazônia atingiu uma área total de 26.130 quilômetros quadrados de agosto de 2003 a agosto de 2004, 6% a mais que os 24.597 quilômetros quadrados registrados entre 2002 e 2003. Foi a segunda mais alta taxa de desmatamento da História do país.
Área corresponde a uma Bélgica
Ainda na primeira página, uma foto do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), classificado pelo ¿Independent¿ de o ¿homem por trás de toda a destruição¿. O jornal fez questão de detalhar um histórico do desmatamento desde a chegada de Maggi ao poder, ressaltando seu papel como principal empresário do plantio de soja no Brasil. Também ocupou destaque o cálculo da área desmatada entre 2003 e 2004, que em proporções européias equivale a uma extensão territorial maior do que a da Bélgica.
O ¿Independent¿ também abordou a questão num de seus editoriais, ainda que falasse em outros casos de desmatamento de florestas tropicais na Ásia e na África. O jornal ao menos abordou o problema de forma mais abrangente, lembrando a participação de empresas britânicas no comércio ilegal de madeira da Amazônia e o fato de que a crise do mal da vaca louca no Reino Unido, em 1998, foi um estopim para o aumento da demanda da soja como matéria-prima para a produção de alimentos para animais de fazenda.
Ao contrário de EUA e Argentina, o Brasil ainda não adotou a soja geneticamente modificada como base de sua produção do cereal, que hoje responde por 65% das importações do gênero pela União Européia. Mas a reportagem, assinada pelos jornalistas Michael McCarthy e Andrew Buncombe, ironizou declarações dadas por Maggi em 2004, em que o governador minimizava o aumento de 40% no desmatamento da floresta. O ¿Independent¿ destacou também os lucros de US$600 milhões registrado pelas empresas de Maggi no ano passado.
Já a revista ¿Economist¿ criticou duramente o governo brasileiro. Em reportagem intitulada ¿A economia avança, as árvores desaparecem¿ reconheceu o fato de o governo ter criado uma série de leis de proteção ambiental para a Amazônia, mas criticou a falta de mais ação, lembrando ainda os planos de recuperação da BR-163, que a revista classifica como um incentivo para aumentar a destruição da floresta.
¿As instituições responsáveis pela proteção da floresta brasileira são fracas, mal coordenadas, corruptas e vulneráveis ao lobby dos fazendeiros e madeireiros¿, diz a reportagem, que ressaltou ainda o fato de a outra grande floresta brasileira, a Mata Atlântica, hoje estar praticamente extinta.
Já o canal de notícias Sky News resolveu traduzir em termos leigos o avanço do desmatamento da Amazônia, dizendo que uma área equivalente a nove campos de futebol é destruída a cada segundo.
Especialista diz que região virou pasto
O ¿Independent¿ entrevistou um integrante do programa de florestas tropicais do Greenpeace, John Sauven, que disse que o avanço da soja está transformando a Amazônia num pasto.
O jornal ouviu também a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e lembrou que ela é de um estado amazônico. Há também uma entrevista com o coordenador de Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, que acusa o governo Lula de não levar em conta a proteção da floresta como prioridade.
A ¿Economist¿ calcula que a mata estará totalmente destruída em 200 anos e diz que a política de erradicação da pobreza do governo Lula é baseada num crescimento econômico intenso. A revista diz ainda ter esperanças de que as autoridades brasileiras entendam que a preservação da floresta não é tratada como prioridade. E aponta o aumento de conscientização da classe média como uma esperança de maior lobby em prol da floresta.