Título: Citado por Jefferson como autor das gravações, Fortuna nega participação
Autor: Maria Lima
Fonte: O Globo, 23/05/2005, O País, p. 3

BRASÍLIA. Personagem misterioso citado pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ), como um dos responsáveis pela gravação de conversa com servidor dos Correios indicado pelo partido, o capitão da reserva da PM mineira José dos Santos Fortuna nega participação no episódio e denuncia estar sendo envolvido num complô de grupos que estão em guerra dentro da estatal. Fortuna, que evitava falar do assunto, diz que não conhece o autor do grampo que flagrou o chefe do Departamento de Contratação dos Correios, Maurício Marinho, recebendo dinheiro.

¿ Não gravei, não sei quem gravou nem vou investigar para saber quem foi. Quem tem de dizer de quem é a mão que lhe entregou o dinheiro é o Marinho ¿ diz Fortuna, dono da Empresa Atrium Engenharia, representante de empresas que disputam licitações milionárias nos Correios.

Ele acredita que Marinho, homem do PTB, tenha sido pego em uma armação preparada por integrantes do grupo adversário, comandado pelo diretor de Tecnologia, Eduardo Medeiros, homem do PMDB e PT.

¿ Fui usado como bode expiatório pelo Roberto Jefferson, que não tem como justificar a fita em que Marinho aparece recebendo propina. Tudo faz parte de uma disputa interna dos grupos nos Correios. Eu não deduro ninguém. Não fiz isso nem quando estava no SNI ¿ afirmou Fortuna.

Empresa representada por Fortuna pediu anulação de licitação

Ele representa, por exemplo, a Intermec, empresa que pediu ao Tribunal de Contas da União a anulação da licitação 059, para compra de computadores coletores de dados de contas de água, gás e luz. A vencedora foi a HHP do Brasil, que ofereceu os equipamentos por R$34,5 milhões. Quatro empresas, entre elas a Intermec, que tinham apresentado propostas mais baratas, foram desclassificas pelos Correios. O motivo registrado na ata do pregão foi descumprimento das especificações técnicas dos equipamentos.

O presidente do PTB declarou na semana passada que ele e Marinho passaram a ser alvos de chantagem e ameaças depois que essa licitação foi cancelada em fevereiro último.

¿ Não conheço Jefferson nem tentei chantageá-lo. Topo uma acareação com ele. Peçam para ele me descrever. Ele é incapaz de me reconhecer ¿ afirma Fortuna, que se diz pronto para prestar depoimento numa CPI. ¿ Não tenho nada a esconder. Meus negócios são feitos às claras, é tudo público, está no site dos Correios. Estou disposto a ir à CPI e prestar esclarecimentos dessa confusão toda a qualquer autoridade.

Disputa por controle das licitações envolve grupos ligados a partidos

A guerra nos Correios pelo controle das licitações e contratos coloca de um lado o grupo comandado pelo PTB e, do outro, o comandado pelo PMDB/PT. Enquanto o PTB controlava a área administrativa, que assina contratos e controla os pregões, PMDB/PT estão na área que determina as especificações para as compras por licitação.

No grupo do PTB , todos os postos-chave tiveram seus titulares escolhidos a dedo por Roberto Garcia Salmeron, ex-todo-poderoso dos Correios, hoje presidente da Eletronorte e amigo íntimo de Roberto Jefferson. Salmeron, ex-vice-presidente dos Correios, perdeu o cargo para o PMDB, que emplacou o ex-deputado e ex-ministro João Henrique.

Mesmo fora dos Correios, Salmeron manteve a influência e agora, com a pressão política de Jefferson, tentava emplacar um nome de sua confiança na diretoria de Tecnologia. A disputa pelo comando desse grupo teria provocado o início da guerra.