Título: OTIMISMO E DESILUSÃO 3 SEMANAS APÓS A CHEGADA
Autor: Paulo Marqueiro e Selma Schimidt
Fonte: O Globo, 22/05/2005, Rio, p. 18

Francisco é contratado; Queila ainda chora com saudade da avó; Robson e Lúcia esperam conseguir emprego

Ocearense Francisco Antonio Ramos tem muito a comemorar na próxima quinta-feira, quando completa 19 anos. Apaixonado por motocicletas, passo a passo ele está conseguindo realizar o sonho que trouxe na bagagem quando embarcou num ônibus no dia 28 de abril passado em Varjota (CE), com destino ao Rio. Na quinta-feira seguinte, já estava trabalhando numa oficina autorizada e matriculado num curso de mecânica de motos.

¿ Vou estudar e procurar trabalho com motos para, no futuro, montar minha oficina em Varjota ¿ dizia ele com entusiasmo durante a viagem.

Um entusiasmo que só aumentou três semanas depois de Francisco chegar ao Rio:

¿ Está bom demais.

Das 15 pessoas que vinham em busca de emprego no ônibus que saiu do sertão do Ceará diretamente para a Favela Rio das Pedras ¿ viagem de mais de 50 horas acompanhada pelo GLOBO e contada na série de reportagens que termina hoje ¿ só uma trazia algo concreto: a sogra de Antonio Cícero Silva, de 24 anos, conseguira trabalho para ele num restaurante em Caxias. O GLOBO fez contato com oito desses migrantes ou com algum de seus parentes. Além de Francisco, somente Antonio Carlos da Silva Rodrigues, de 18 anos, arranjou emprego. Ele contou a novidade num telefonema à mãe, Antonia do Nascimento Rodrigues, que mora em Guaraciaba (CE).

¿ O Antonio Carlos chegou num sábado e já estava trabalhando de entregador numa farmácia na terça. Ele me ligou muito contente ¿ diz ela.

O empurrãozinho de um amigo de Varjota, que mora no Rio e concluiu o curso de mecânica de motos no Senai, foi fundamental para Francisco começar a realizar seu sonho. Foi esse amigo que levou Francisco até a World Crazy, autorizada da Suzuki no Joá. O dono da loja, Jorge Rajão, procurava um ajudante de mecânica para montar e consertar as novas motos de 125 cilindradas. Em vez dos jovens já formados pelo Senai, Rajão optou por Francisco.

¿ Ele tem prática, embora não domine a técnica. Sabe fazer, mas não por que faz ¿ justificou Rajão, que planeja pôr Francisco num curso na fábrica da Suzuki em Jundiaí (SP).

Tal prática Francisco trouxe de Varjota, onde, aos 9 anos, aprendeu a andar de moto e, dos 13 aos 18, trabalhou numa oficina especializada.

O sorriso de Francisco contrasta com os olhos tristes de Antonia Queila da Silva Freitas, de 16 anos, que veio ao encontro do marido, o auxiliar de cozinha Carlos Evilane de Freitas, no Rio desde 15 de março. Queila ainda não ultrapassou as fronteiras da Favela Gardênia Azul, em Jacarepaguá. Suas poucas saídas foram até o orelhão a 1.300 metros de casa e à Igreja Assembléia de Deus.

¿ Tive uma crise de nervos na segunda-feira depois do Dia das Mães. Era folga do meu esposo e chorei muito no ombro dele, com saudade da minha vozinha e da minha mãe. Não tinha conseguido falar com elas pelo telefone ¿ conta Queila, que morava na Ilha de Izaú, em Hidrolândia (CE).

Para passar o tempo e arranjar dinheiro, Queila começou a tecer redes de pesca. Mas só conseguiu terminar uma, porque os pulsos incharam. Com os donos do bar que alugam a parte da frente da casa onde Queila ocupa um quarto, a jovem arrumou um serviço: fazer salgados às quintas e sextas-feiras para vender nos fins de semana.

¿ Não vou ficar mais de dois anos no Rio. Quero ganhar dinheiro para acabar de montar a minha casa na Ilha de Izaú e voltar. Não vivo longe da minha vozinha ¿ diz Queila.

As visitas de Melria Lopes Teixeira, de sua filha Maria Clarice Souza Soares, de 1 ano e 3 meses, e de seu marido Antonio Carlos Soares de Souza têm ajudado Queila a tentar superar a saudade da família. Melria e Maria Clarice viajaram com Queila para encontrar Antônio Carlos, que estava no Rio há seis meses.

¿ Graças a Deus minha mulher e minha filha estão comigo. Sem elas, só trabalhava e dormia ¿ conta Antonio Carlos, que é primo de Queila.

Melria, a filha e o marido estão morando em Rio das Pedras. Mas se mudaram para uma casa maior. Saíram de uma quitinete para um quarto-sala-cozinha-e-banheiro. Melria ainda não procurou emprego, pois a filha está resfriada desde que chegou. Os passeios das duas foram limitados à Gardênia Azul e à Rocinha para visitar parentes.

¿ A Rocinha é muito perigosa. Fiquei assustada quando vi os bandidos de lá com pistolas nas mãos ¿ conta Melria.

Maria Lúcia Mesquita e Robson Costa Lima procuraram, mas ainda não conseguiram emprego. O casal está morando num quarto com mezanino, alugado numa casa de cômodos de Santa Teresa. O fogão, a geladeira e a mesa são novos. Com capricho, Lúcia espalhou toalhinhas sobre móveis e eletrodomésticos. Na janela, colocou uma cortina de renda. Ela está procurando trabalho como acompanhante de idosos ou doméstica. E Robson como motorista, porteiro ou faxineiro.

¿ Tenho fé em Deus que vamos conseguir ¿ afirma Lúcia, com otimismo.

Vladimir Feitosa Rodrigues, de 18 anos, também não encontrou trabalho, segundo a irmã Valdeirla. Aos 11 anos, quando trabalhava numa padaria de Guaraciaba, ele perdeu três dedos da mão esquerda ao se acidentar numa máquina.

¿ Estou correndo atrás dos documentos dele. Se não conseguir emprego, vou tentar sua aposentadoria ¿ afirma a irmã.

Maria Auxiliadora Rocha precisa achar uma escola para os filhos Francisco Ronaldo e Francisco Douglas, de 5 e 6 anos, para que possa procurar emprego. O marido, Francisco Ronaldo Rocha Macedo Cunha, está no Rio há seis meses:

¿ A Auxiliadora falou em voltar para Tapuio (distrito de Cariré, no Ceará). Disse a ela que é preciso paciência. Quando cheguei, passei um mês parado. Agora sou faxineiro num prédio em São Conrado.

Num rápido telefonema, dado de um orelhão domingo passado, o pedreiro José de Souza, de 41 anos, parecia desesperado. Pela terceira vez ele saíra de Varjota para morar no Rio.Veio para casa de uma enteada em Rocha Miranda:

¿ Não estou agüentando mais. Não consigo emprego. Acho que vou voltar ¿ dizia ele, quando a ligação caiu.