Título: De volta à aridez do sertão
Autor: Paulo Marqueiro e Selma Schimidt
Fonte: O Globo, 22/05/2005, Rio, p. 18

Entre 1995 e 2000, 42 mil nordestinos deixaram o Rio para retornar à terra natal

Antonio Valdir Rodrigues de Souza, de 33 anos, e a mulher Maria Geni Carlos Matias, de 35, deixaram Macaraú, distrito de Santa Quitéria, no Ceará, em 1992 para procurar emprego no Rio. O casal conta nos dedos as viagens que fez ao Ceará nos 13 anos em que morou na Rocinha. Tudo somado, foram mais perdas do que ganhos. Ao migrarem para a cidade, deixaram com os avós maternos o filho Paulo Cesar Carlos Matias de Souza, de 2 anos. Nem ao enterro do pai, sete anos atrás, Valdir conseguiu ir, porque não tinha dinheiro para a passagem e não podia faltar ao trabalho. Chorou à distância.

Este ano Valdir perdeu o emprego de barman num restaurante do Centro e decidiu voltar para Santa Quitéria. Geni, que trabalhava como babá há dez anos para a mesma família, pediu as contas. Em 11 de abril, o casal embarcou num ônibus da Itapemirim rumo ao sertão do Ceará.

¿ Eu me sinto revoltada porque deixei meu filho no Ceará e vim para o Rio cuidar do filho dos outros ¿ lamentou Geni, ainda na Rocinha.

Com o casal viajou o poodle Toni ¿ homenagem ao personagem de Reynaldo Gianechini na novela ¿Esperança¿, da Rede Globo ¿ que Valdir e Geni tratam como um filho. Nenhuma semelhança com a pobre Baleia de ¿Vidas Secas¿, de Graciliano Ramos. Seus donos podem ser retirantes, mas na Rocinha Toni sempre teve do bom e do melhor.

Com caderneta de vacinação em dia, casinha especial, chapéu e sapatos, Toni foi preparado para a viagem. Bem cedo, Valdir, Geni e Toni desceram as ladeiras da Rocinha até o início da Estrada da Gávea, em São Conrado, para embarcar no ônibus que faz a ponte entre a favela e o sertão. Antônia Ferreira Carlos, prima de Geni, e vizinhos ajudaram a carregar as nove caixas e sacolas com o pouco que o casal conseguiu no Rio: um aparelho de TV, um rádio, panelas e roupas.

Antônia, que recebeu os abraços mais emocionados de Valdir e Geni, continua morando na casa alugada pelo casal na Rocinha, com uma ampla varanda ¿ onde são estendidas redes ¿ e um quarto.

Na terra natal, espaço e pobreza

A chegada do casal à área rural de Santa Quitéria marca uma mudança radical de paisagem. Em vez de vielas e moradias coladas umas às outras, surgem uma longa estrada de terra, vegetação de caatinga e casas esparsas. A dos pais de Geni é ampla, mas não tem água encanada e o fogão à lenha é mais usado do que o a gás, porque o botijão é caro.

Tímido, Paulo Cesar, de 15 anos, teve dificuldade de se entrosar com os pais, que viu poucas vezes. Agitado, Toni exigiu carne e mordeu o pai de Geni, Francisco Malta Moreira, e a mãe de Valdir, Maria Aurélia Rodrigues. Ao chegar ao sertão, Valdir chorou de saudades do Rio e pensou até em voltar:

¿ A gente é teimoso, senão não vive aqui. Tudo é muito parado.

Geni conseguiu trabalho logo: passou a fazer chapéus de palha, a 15 centavos cada um. E vem tentando demover o marido da idéia de trocar mais uma vez o Ceará pelo Rio.

¿ A vida aqui é cansativa. Mas estamos perto da família ¿ explica.

A viagem de volta ao Nordeste feita por Valdir e Geni não é exceção na rotina dos migrantes. De acordo com números do pesquisador Fernando Albuquerque, gerente do projeto Componentes da Dinâmica Demográfica, do IBGE, entre 1995 e 2000, ano do último Censo, 42.072 nordestinos partiram do Rio para os seus estados de origem, num fenômeno conhecido como migração de retorno.

¿ O retorno se dá tanto pelo insucesso quanto pelo sucesso do movimento migratório ¿ diz Albuquerque. ¿ Em geral, as entradas nos estados do Nordeste acontecem em idades mais elevadas, de 25 a 29 anos, de 30 a 34 anos e de 35 a 39 anos, diferentemente do que ocorre em outros estados, onde o pico é no grupo de 20 a 24 anos. Isso é justificado pela grande quantidade de migrantes de retorno, que têm idade mais elevada.

Ainda segundo o IBGE, do total de 1,05 milhão de migrantes que se mudou para os estados do Nordeste entre 1995 e 2000, 43,4% (458.954) estavam retornando à terra natal, sendo 42.072 (9,16%) provenientes do Rio.

No mesmo ônibus em que viajaram Valdir e Geni embarcaram o pedreiro Francisco Erivaldo Bezerra, um filho e quatro enteados. A mulher Maria do Carmo Pinto e dois outros filhos foram dias depois. Após 11 anos no Rio, Francisco ficou desempregado e levou a família para morar na casa dos pais, em São Benedito, no Ceará:

¿ A gente perdeu tempo demais aqui ¿ lastimou Francisco ao embarcar no Rio.

Também desiludidos, Raimundo Araújo, de 34 anos, e Lúcia Alves Carvalho, de 30, viajaram antes. Em 7 de abril voltaram para o sítio da família em Chaval, no Norte do Ceará, com as filhas Katleen e Maria Vitória, de 11 e 4 anos. Depois de dois anos e meio vivendo no Rio, Raimundo perdeu o emprego na construção civil, devolveu a casa alugada com mobília e tudo em Rio das Pedras e retornou a seu estado. Pelo menos temporariamente.

¿ Desde os 18 anos não tenho paradeiro. Sou como cigano. Na minha cidade, salário é só o mínimo. Não dá para sustentar a família ¿ afirma Raimundo.

A menina Katleen se mostrou feliz com a volta:

¿ No Rio a gente vive presa. Mamãe não deixa brincar na rua.

Já Edilma Silva Pereira, de 22 anos, queria continuar tentando a sorte no Rio, mas foi voto vencido. O marido, João Batista Pereira, de 28 anos, decidiu deixar a Rocinha depois de perder o emprego de auxiliar de portaria. Em 5 de abril os dois pegaram o filho João Vitor, de 4 anos, e foram para Campina Grande, na Paraíba. Deixaram no Rio cinco irmãos de João e quatro de Edilma.

¿ Vou trabalhar como ajudante de pedreiro com meu pai ¿ disse João Batista.

Resto da mudança vai de caminhão

O vaivém entre o Rio e os estados do Nordeste é tanto que fez surgir um novo mercado: caminhoneiros passaram a transportar para a região tudo o que os migrantes não conseguem levar de ônibus. Joseli Melo Martins é um deles. Ele costuma estacionar seu caminhão de mudanças junto à subida da Rocinha e, quando o veículo fica lotado, segue para o Ceará.

O transporte do alto da Rocinha até o caminhão de Joseli é feito por picape, que bloqueia ruas estreitas da favela até que os objetos sejam recolhidos. Foi o que aconteceu no fim de abril, quando saiu a mudança de Francisca Inácia do Nascimento, do marido dela, Manoel Alves do Nascimento, do filho caçula do casal, Leandro Alves do Nascimento, e da mulher dele, Antonia Soares Lopes. Os dois casais foram para lugares diferentes. Desempregados, Leandro e Antonia foram para Itapipoca, perto de Fortaleza:

¿ Vamos ver se conseguimos alguma coisa por lá ¿ diz Leandro, que quer alugar o apartamento da Rocinha para ter uma fonte de renda.

Empurrados para o Nordeste pela mesma desilusão, Josefa Maria da Silva, de 23 anos, João de Souza Cavalcante, de 34, e a filha Maria Aparecida, de 7, embarcaram na Rodoviária Novo Rio, em 22 de abril, para Timbaúba, em Pernambuco. As passagens foram doadas pela Secretaria estadual de Ação Social, no programa ¿De volta para o meu aconchego¿, em parceria com a Itapemirim. O saldo de um ano e oito meses no Rio: um ventilador de R$25 e um ferro de passar. Eles decidiram voltar depois de perderem o emprego num sítio em Nova Iguaçu, onde trabalhavam como caseiros.

¿ Telefonei para minha mãe para dizer que estava indo e ela falou: não vem não, filha, porque aqui só tem farinha. Mas eu disse: mãe, não tenho ninguém, aí pelo menos estou perto de você ¿ contou Josefa antes de partir.

Mas nem todos voltam ao Nordeste frustrados. Francisca e Manoel passaram 30 de seus 65 anos no Rio. Francisca mal sabe assinar o nome, mas os três filhos concluíram o ensino médio no Rio. Com a aposentadoria de Manoel como garçom e o dinheiro do aluguel de uma casa na Rocinha, agora os dois querem viver definitivamente no Cariré, Ceará:

¿ Nunca esqueci a minha terra. Quando chegar ao Ceará, vou ser feliz ¿ disse Francisca antes da viagem.

Também do Ceará, Antônio e Marta Bezerra são gratos ao Rio, onde chegaram em 1986 e ficaram dez anos.

¿ No Rio fizemos curso de cabeleireiro. Voltamos para Santa Quitéria e montamos nosso próprio salão ¿ orgulha-se Martinha.