Título: TELEMAR É CORTEJADA POR INGLESES, PORTUGUESES, MEXICANOS E ITALIANOS
Autor: Andre Moragas e Maria Fernanda Delmas
Fonte: O Globo, 22/05/2005, Economia, p. 36
Mercado dá como certa a venda da empresa, que se diz compradora
A negociação que desenharia o novo mapa das telecomunicações no país é a venda da Telemar, concordam especialistas. Uma fonte ligada ao Conselho de Administração da companhia revela que desde a privatização a Telemar vem sendo preparada para uma possível venda, e que hoje os donos mantêm conversas com a Portugal Telecom (PT), a inglesa Vodafone, o empresário mexicano Carlos Slim (o homem mais rico da América Latina) e, mais recentemente, até com a Telecom Italia.
¿ Está pronta para empacotar e vender. Há conversas adiantadas com pelo menos três interessados ¿ garante a fonte.
A analista Luciana Leocadio, do BES Securities, acha a venda factível, mas não agora. Ela diz que no mercado financeiro as ações ordinárias (com direito a voto) estão mais valorizadas que as preferenciais, justamente por causa dessa perspectiva de troca de controle um dia.
Para fonte dos acionistas, ainda há valor a gerar
O analista Eduardo Roche, da Agora Sênior, lembra que para ser vendida a um grupo que já atua no Brasil a Telemar precisaria da anuência da Agência Nacional de Telecomunicações ¿ uma empresa não pode ser dona de duas concessionárias. No entanto, um modelo estruturado pelo consórcio formado por Telemar, Brasil Telecom (BrT) e Telefônica para tentar levar a Embratel chegou a receber sinal verde do governo.
Uma fonte ligada aos acionistas da Telemar afirmou que a geração máxima de valor ¿ em bom português, o momento ideal para vender por um caminhão de dinheiro ¿ ainda está longe. Desde 1998, a operadora Telemar, por exemplo, enxugou estruturas, passou de cerca de 30 mil empregados para aproximadamente oito mil (sem contar os mais de 30 mil da empresa de call center do grupo) e lançou a Oi. E poderia estar ainda mais valorizada, não fosse ter perdido chances de aquisição: a Embratel, o controle do iG, a banda D de celular em São Paulo e a BCP. A fonte é categórica em negar a venda, pelo menos por enquanto:
¿ Não aposte em venda da Telemar. Existe uma campanha coordenada contra a empresa. Ela é compradora. Quer a Vodafone, quer se juntar a uma empresa russa, a uma empresa indiana. E estou falando sério.
A Telemar, que surgiu como o azarão na privatização, é dominada por um grupo para lá de eclético: fundos de pensão liderados pela Previ, do Banco do Brasil; a La Fonte, de Carlos Jereissati, especializada sobretudo em shopping centers; a construtora Andrade Gutierrez; a GP, criada por Jorge Paulo Lemann, maior acionista da AmBev e das Lojas Americanas; a Lexpart, empresa vendida pela paranaense Inepar ao Opportunity, aos fundos e ao Citigroup; e o BNDES, que entrou logo depois do leilão da Telebrás alegando ter de salvar o negócio da falta de uma operadora de telefonia estrangeira com fôlego financeiro.
Os fundos de pensão, o Opportunity e o Citigroup não têm assento no Conselho, porque já são controladores da BrT.
¿ Há harmonia não porque todos são amiguinhos, mas porque têm interesses comuns ¿ disse a fonte.
Opportunity tem de resolver pendência com sócios
Se sair da BrT, o Opportunity pode tentar conseguir voto na Telemar. Mas os acionistas da Telemar não querem o banco de Daniel Dantas no bolo, por causa da desarmonia com que o Opportunity tem vivido com seus sócios. E dizem que ele nem poderia entrar agora. A fonte explica que o Opportunity tem apenas 45% da Lexpart, e precisaria antes resolver sua briga com os fundos e o Citigroup, donos do resto. Mas o Opportunity avisa que não vai tirar o olho de tão importante ativo.
De acordo com um executivo de uma operadora, apesar de os sócios da Telemar terem conversado com Slim, o empresário deve continuar com a política de comprar ativos pelo menor preço possível. Slim não entrou no país na época da privatização da Telebrás. Por meio da Telmex e da América Móvil, comprou empresas aos poucos até montar um império com Claro, Embratel e Vésper. (André Moragas e Maria Fernanda Delmas)