Título: CIDADE SERTANEJA TEM SO UM PM DE PLANTAO
Autor: Paulo Marqueiro e Selma Schmidt
Fonte: O Globo, 21/05/2005, Rio, p. 16

Ruas largas, pessoas conversando nas portas de casa, nenhum sinal de arma de fogo, ninguém, pelo menos aparentemente, dizendo-se dono do lugar ou cerceando o direito de ir e vir. Esta é a descrição de Pedreira, bairro considerado pela polícia o mais violento de Varjota, município de 16 mil habitantes no sertão do Ceará.

Na manhã de 25 de abril, no prédio onde funcionam um destacamento da Polícia Militar e a delegacia de Varjota, um único PM, o soldado Francisco Wellington Tomás, tinha de optar entre três missões: tomar conta do xadrez, onde estão dez presos; fazer a escolta de um carro-forte na porta de um banco; e atender a um assalto a uma loja de confecções no mercado da cidade. Um dilema que virou rotina para Tomás. No posto, estão lotados apenas oito policiais, incluindo o delegado, que também responde pela delegacia de Reriutaba. A falta de pessoal transformou o banho de sol dos presos, na frente da delegacia, em fato raro: só acontece quando há três policiais no posto.

Tomás decidiu ficar no posto até a chegada de um colega. Era hora de almoço e parentes de presos entravam e saíam, levando comida, que não é fornecida pela delegacia.

Um dos presos era Francisco Florêncio Martins de Oliveira, de 48 anos, acusado de tentar matar o vereador José Marcelo Lopes com um facão uma semana antes, durante um programa numa rádio local. A vítima conseguiu fugir e Francisco, que aparenta ter problemas mentais, foi preso em casa, depois de reagir, atirando com uma espingarda socadeira (de pólvora) e quebrar o vidro traseiro do único carro de polícia de Varjota. Francisco esteve no Rio em 1986 e 1989. Morou na Rocinha, favela onde um outro preso ¿ Artêmio Ferreira, de 22 anos ¿ acusado de porte de droga, sonha viver:

¿ Aqui não tem trabalho e então se faz besteira ¿ afirma Artêmio.

No posto policial, os presos dormem em redes, penduradas nas três celas. Em média, três assaltos são cometidos por semana em Varjota. Os alvos geralmente são comerciantes e motoristas de picapes. Mas o tráfico de drogas não passa incólume. O motorista João José da Rocha Filho contou que há três anos foi contratado por um rapaz para levá-lo de moto a Novo Oriente, onde buscaria uma encomenda. Só na volta, o rapaz disse a João que se tratava de maconha.

¿ Levei um susto ¿ diz João.