Título: 'VENEZUELA EXPORTA POPULISMO POUCO RECOMENDÁVEL'
Autor: Cristina Azevedo
Fonte: O Globo, 21/05/2005, O Mundo, p. 34

Ex-presidente do governo espanhol vê com preocupação a aproximação de Madri com regimes de Fidel e Chávez

É com preocupação que o ex-presidente do governo espanhol José María Aznar vê a aproximação de seu país com Cuba e Venezuela. "Não creio que o lugar da Espanha esteja entre um ditador e alguém que aspira a sê-lo. O lugar da Espanha é com as democracias do mundo", disse. No Rio de Janeiro para o encontro da Internacional Democrática de Centro (IDC), da qual é presidente, Aznar criticou também a proposta do novo governo espanhol de negociar com o grupo separatista basco ETA. "Não tem que falar com terroristas. Tem que derrotá-los", disse. "Creio que uma oferta de diálogo de um governo é o que os terroristas querem para obter um preço político por seus ataques. Eles continuarão tentando, até aumentar esse preço."

Como o senhor vê a política externa espanhola para a América Latina. Ela mudou?

JOSÉ MARÍA AZNAR: Na época em fui presidente, havia elementos básicos na nossa plataforma política para a América Latina: a primeira era contribuir para o fortalecimento de todas as democracias como fator de desenvolvimento; a segunda foi transformar a Espanha no segundo investidor do mundo na região; a terceira foi fomentar as reuniões de cúpula latino-americanas; e a quarta, estabelecer uma relação melhor entre Espanha e Ibero-América e Caribe. Tivemos acordos com Chile, México. Impulsionaram-se os acordos com o Mercosul.

Alguns analistas políticos dizem que as relações eram mais comerciais, e que hoje são mais políticas e sociais...

AZNAR: Uma política social é uma política que investe, que gera crescimento, riquezas. Uma política social que não investe, que não gera crescimento, não interessa.

Qual a sua opinião sobre a relação hoje da Espanha com Cuba e Venezuela?

AZNAR: Creio que a política externa da Espanha é um equívoco muito grande. Cuba é uma ditadura e Venezuela é um regime que desliza claramente para uns modelos autoritários. A Venezuela exporta um modelo de populismo muito pouco recomendável. Não creio que o lugar da Espanha esteja entre um ditador e alguém que aspira a sê-lo. O lugar da Espanha é com as democracias do mundo.

O Partido Popular pensa em entrar com alguma medida na União Européia para retomar as sanções a Cuba?

AZNAR: Não é questão de sanções, mas de pôr os direitos humanos como ponto fundamental. Eu promovi uma política comum na UE que consistia em que nada devia se fazer em Cuba sem levar em conta os dissidentes e os direitos humanos. O novo governo espanhol deu fim a essa política. Essa análise é um erro, um desprezo a todos os que lutam pelos direitos humanos e pela liberdade.

O senhor foi aliado dos EUA na guerra do Iraque. Mas o novo governo retirou as tropas espanholas. Como ficam as relações com os EUA?

AZNAR: Estão num mau momento. O mais importante é o compromisso da Espanha com as liberdades e a democracia. Elas são uma garantia para a segurança de todos. Se você abandona seus amigos e aliados, comete um grave erro. Se, além disso, toma a decisão após ataques graves na Espanha, então isso faz os terroristas suporem que alcançaram seus objetivos. E se você não é leal a seus aliados, não pode pedir que eles sejam leais a você. Se além disso, prescinde dos direitos humanos como ponto de referência na política de Cuba, e se também se dedica a vender armamento a alguém que está levando a Venezuela por uma deriva autoritária e quase ditatorial, então a Espanha está neste momento francamente equivocada.

Há uma proposta de diálogo do governo com o ETA. Qual a sua opinião?

AZNAR: Parece-me um disparate. Com os terroristas não se dialoga. Só o fato de ter feito a oferta é algo inacreditável. Os terroristas buscam nossa rendição. Não tem que falar com eles. Tem que derrotá-los. Esse governo fez coisas muito negativas. Rompeu o acordo antiterrorismo feito com os partidos, eliminou a possibilidade de uma alternativa política no País Basco, permitiu a entrada de representantes dos terroristas no Parlamento basco. Fazer o que fez este governo é de uma grande irresponsabilidade.

Mas não poderia ser uma solução para acabar com os atentados?

AZNAR: Absolutamente não. Creio que uma oferta de diálogo de um governo é o que os terroristas querem para obter um preço político por seus ataques. Eles continuarão tentando, até aumentar esse preço político.

Legenda da foto: AZNAR: "A política externa da Espanha é um equívoco muito grande"