Título: Planalto luta contra CPI até o fim
Autor: Adriana Vasconcelos, Maria Lima e Isabel Braga
Fonte: O Globo, 26/05/2005, O País, p. 3

Comissão para apurar denúncias nos Correios foi criada mas governo tentava retirar assinaturas

Foi criada nas primeiras horas da manhã de ontem, em tumultuada sessão do Congresso, a comissão parlamentar de inquérito (CPI) que vai investigar denúncias de corrupção nos Correios. Mas ministros e aliados do governo passaram o dia em intensa mobilização para tentar retirar até a última hora, meia-noite de ontem, apoios ao pedido de CPI, que foi lido em plenário com assinaturas de 254 deputados e 51 senadores. Para impedir a criação da CPI, o governo teria que retirar 84 assinaturas de deputados ou 24 de senadores.

As articulações governistas ocorreram na madrugada e as manobras foram postas em prática na sessão, quando os líderes apresentaram, sem sucesso, um recurso propondo o arquivamento do pedido, sob o argumento de que não havia fato determinado para a investigação. Apesar das boas relações que mantém com o Palácio do Planalto, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), indeferiu o recurso na mesma hora.

¿ O artigo 58 da Constituição estabelece três requisitos para a criação de uma CPI: um terço das assinaturas dos membros das duas Casa, fato determinado e prazo para a investigação. O requerimento lido preenche todos os requisitos constitucionais ¿ proclamou Renan.

Mesmo assim, os governistas estavam dispostos a trabalhar até a meia-noite, pois até aquele momento só tinham garantidas as retiradas de 13 deputados do PTB. Terminada a sessão, líderes, ministros e presidentes de partidos retomaram as tensas reuniões para traçar a estratégia e fazer arranjos, à exaustão. A idéia era reunir todos os requerimentos de desistência ao longo do dia e só apresentá-los em bloco, perto da meia-noite.

No meio da tarde, cansaço e desânimo

Todas as conversas foram recheadas de promessas para os bons aliados. Mas a movimentação financeira do governo nos últimos dias não representa que houve atendimento maciço das emendas de parlamentares: apenas R$7 milhões de emendas do MInistério das Cidades.

No meio da tarde, o desânimo e o cansaço tomavam conta de todos os líderes. Mas o governo não desistiu até o último minuto. A ação foi tão intensa, que levou o PSDB a perder uma deputada: Ana Alencar (TO). Suplente do PL, ela foi procurada pela cúpula do partido, que a pressionou a trocar de legenda se quisesse continuar no mandato. Do contrário o titular retornaria e ela perderia a cadeira.

¿ Se ela não aceitasse a chantagem, perderia o mandato ¿ afirmou o líder do PSDB, Alberto Goldman (SP).

PMDB e PT eram os entraves na tática de retirada de assinaturas.

¿ O PT é um calo, mas o PMDB é o maior calo. Se o PMDB não retirar, não tem jeito ¿ dizia o líder do PSB, Renato Casagrande (ES).

A esperança do governo era de que, dos 39 peemedebistas que assinaram, pelo menos 20 retirassem. Mas, no meio da tarde, o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), foi avisado que as incursões no PMDB seriam infrutíferas. No fim de quase 40 horas de reuniões, o PT conseguiu convencer apenas seis dos 19 petistas que assinaram a retirar seus nomes. Entre eles, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Antônio Carlos Biscaia (RJ), que em praça pública no Rio, sexta-feira, jurara que não voltaria atrás. Como nos demais partidos da base, os que desistiram deixaram documentos para a retirada, que seriam apresentado em bloco.

No início da tarde, alguns aliados já sugeriam que o governo partisse para o ataque.

¿ O governo tem de dar o grito: vamos à guerra com todos os seus horrores ¿ disse o líder do PP, José Janene (PR).