Título: PROFANAÇÃO DO ALCORÃO LEVA MULTIDÕES ÀS RUAS
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Fonte: O Globo, 28/05/2005, O Mundo, p. 25
General americano admite que livro sagrado muçulmano foi tratado de forma inadequada em cinco ocasiões
ISLAMABAD. Com cópias do Alcorão e gritando frases contra os EUA, milhares de muçulmanos protestaram ontem em vários países contra a profanação de seu livro sagrado por americanos na prisão da base naval da Baía de Guantánamo, em Cuba. Em Malásia, Paquistão, Bangladesh, Jordânia, Líbano e Egito, manifestantes queimaram bandeiras americanas e fotos do presidente George W. Bush.
¿ América, ouça, ouça, com meu sangue eu protegerei o meu Alcorão ¿ gritavam milhares de pessoas numa passeata do Hezbollah, em Beirute.
No Paquistão, mais de 15 mil pessoas atenderam ao chamado da aliança islâmica Muttahida Majlis-e-Ammal, principal força de oposição no país, e saíram em passeata. ¿Desculpas aos muçulmanos pela profanação do Alcorão¿ estava escrito numa faixa num protesto em Islamabad. ¿Estamos dispostos a sacrificar nossas vidas pela honra do Alcorão¿, dizia outra, em Lahore.
Protesto e atentado na capital paquistanesa
As manifestações em Islamabad aconteceram num clima tenso, após um atentado a bomba matar no mínimo 19 pessoas e ferir mais de 65 no santuário de Bari Imam Shah, nos arredores da capital, onde milhares de xiitas comemoravam a data de nascimento do padroeiro da cidade. A polícia suspeita de que a explosão tenha sido causada por um homem-bomba.
No Egito e na Jordânia, os protestos foram convocados pela Irmandade Muçulmana. No Cairo, manifestantes queimaram bandeiras dos EUA e de Israel, enquanto cerca de dez mil pessoas protestavam em Alexandria, norte do país. Em Amã, 1.500 pessoas foram às ruas.
As reações começaram após a revista ¿Newsweek¿ afirmar que militares americanos em Guantánamo jogaram cópias do Alcorão no vaso sanitário para pressionar prisioneiros. Sob pressão do governo americano e diante de protestos violentos, que no Afeganistão deixaram 16 mortos, a revista se retratou. Mas um documento do FBI revelado esta semana mostrou que um preso fizera a mesma acusação. Segundo o Pentágono, o preso retirou a queixa.
Tentando acalmar os ânimos, o Pentágono convocou a Washington o comandante do campo de prisioneiros de Guantánamo, general Jay Hood. Ele reconheceu que o Alcorão foi tratado de forma inadequada em cinco ocasiões, mas desmentiu enfaticamente que tenha sido jogado num vaso sanitário. O general, no entanto, não deu detalhes sobre o que os militares teriam feito com o livro.
Zarqawi passa bem, diz grupo terrorista
Militares de Guantánamo são acusados de tortura pela Anistia Internacional, que comparou a prisão a um gulag ¿ campo de prisioneiros russo. O general Bantz Craddock, do Comando Sul, criticou ontem a organização e disse que a comparação era exagerada. Os EUA têm 520 presos em Guantánamo. A maioria é formada por muçulmanos detidos na guerra do Afeganistão.
Em São Francisco, um discurso da secretária de Estado, Condoleezza Rice, foi interrompido por quatro manifestantes que recriaram a cena de uma foto de tortura na prisão iraquiana de Abu Ghraib, em que um homem encapuzado é ligado a fios elétricos. Os manifestantes foram retirados do auditório.
No Iraque, o braço da al-Qaeda anunciou ontem que seu líder, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, está bem e ¿ liderando a guerra santa¿. Na terça-feira, um site islâmico disseram que o principal líder da resistência contra os americanos havia sido ferido. Segundo outra declaração em nome da Organização da al-Qaeda para a Jihad no Iraque, o grupo nomeara um vice-líder, mas depois o porta-voz do grupo negou a informação.