Título: Reforma solta
Autor: Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 30/05/2005, Panorama Político, p. 2

O ano está passando, os partidos se reúnem e a reforma política não sai do lugar. Esta semana os líderes dos partidos na Câmara querem se reunir com o presidente Severino Cavalcanti (PP-PE) para definir um cronograma de votação. Eles querem implementar uma agenda decidida há duas semanas pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), do PSDB, do PMDB, do PFL e do PT.

O líder do PSDB, Alberto Goldman (SP), na reunião dos líderes com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer em defesa da reforma política: ¿Nós todos somos produtos deste sistema apodrecido¿. O sistema a que o tucano se refere está ligado ao escândalo dos Correios, que nos remete à eventual montagem de esquemas de arrecadação de fundos com fins eleitorais. Agora, segundo o líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ), a reforma teria ficado fundamental devido à vulnerabilidade do governo Lula às alianças que fez para governar o país, baseada em meia dúzia de partidos de pequeno e médio porte.

Mas se os quatro maiores partidos estão de acordo sobre a necessidade da reforma política isso não significa que ela será feita. Neste momento, eles estão com suas energias canalizadas para a CPI dos Correios. Ambiente que favorece aos que querem travar a reforma. O presidente da Câmara, dizem seus aliados, aceita apenas que se vote o fim da verticalização, regra introduzida pelo TSE nas eleições de 2002 proibindo que as coligações dos partidos nos estados não tivessem vinculação com a aliança que fizeram nas eleições para presidente.

¿ Vamos acabar com a verticalização e deixar o resto como está ¿ diz José Janene (PR), líder do PP.

O troca-troca partidário que tanta indignação provoca na sociedade não desperta tanta repulsa assim nos partidos, pois todos participam freneticamente quando a situação lhes favorece. Por isso, mudanças simples, que não dependem de maioria constitucional, como definir nos regimentos da Câmara e do Senado que para fins legislativos vale a bancada diplomada, não andam.

O que dirá enfrentar temas mais difíceis e polêmicos, como a implantação do financiamento público das campanhas e a adoção da votação em listas fechadas de candidatos por partido, mesmo que com adoção prevista para 2008. Apesar do desgaste na opinião pública, a maioria dos parlamentares não se move diante de escândalos que revelam uma relação imprópria entre a gestão pública e o financiamento eleitoral.