Título: UNB ABRE SINDICÂNCIA PARA APURAR VENDA DE GABARITOS DE CONCURSOS
Autor: Enio Vieira e Carolina Brígido
Fonte: O Globo, 30/05/2005, O País, p. 8
Questões de pelo menos 13 provas foram vendidas por R$50 mil
BRASÍLIA. Depois da prisão de três pessoas consideradas centrais na máfia que desde 1981 vinha fraudando concursos públicos em todo o país, o Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe) ¿ órgão da Universidade de Brasília (UnB) responsável pela elaboração de provas em todo o Brasil ¿ abriu uma sindicância interna para apurar denúncias de venda de gabaritos. A Polícia Civil de Brasília descobriu que as respostas das questões de pelo menos 13 provas teriam sido vendidas por até R$50 mil a candidatos antes da realização do teste.
Para os policiais, a quadrilha, chefiada pelo técnico judiciário Hélio Ortiz, tinha ramificações dentro do Cespe. A unidade também deverá contratar nos próximos dias uma auditoria externa para reforçar a apuração de responsabilidades.
¿ Nós confiamos na equipe do Cespe, mas sempre há o risco de alguma irregularidade. Temos dois convênios com a Polícia Federal para garantir a idoneidade de todos os concursos ¿ disse a diretora-geral do Cespe, Romilda Macarini, que, no entanto, cobrou da polícia o repasse de informações ao Cespe e a comprovação de que as fraudes nos concursos organizados pela unidade ocorreram.
Reitoria adotará novas medidas de segurança
Embora o vestibular da UnB não figure, pelo menos por enquanto, na lista da Polícia Civil de provas sob suspeita, a reitoria da UnB anunciou no sábado que adotará medidas inovadoras de segurança para evitar fraudes no 2º vestibular de 2005, com provas marcadas para 11 e 12 de junho. Para dificultar a atuação de criminosos, a universidade não divulgou o novo esquema de fiscalização das provas.
Segundo o delegado Miguel Lucena, que lidera as investigações, as suspeitas de fraudes em concursos públicos e vestibulares começaram a ser apuradas em novembro de 2004, na Operação Galileu. Desde então, foram expedidos 107 mandados de prisão contra integrantes da quadrilha. Desse total, 85 pessoas estão presas, seis estão foragidas e 16 pessoas já foram postas em liberdade por terem cooperado com a polícia em seus depoimentos.
Além de Ortiz ¿ que ontem falou à imprensa, encapuzado, na Polícia Civil de Brasília ¿ estão presos outras duas peças fundamentais da quadrilha: Carlimi Oliveira e seu marido, Leonardo Oliveira, ex-funcionário do Cespe. Leonardo trabalhava na gráfica do órgão e obtinha cópia das provas antes de serem aplicadas. O material era repassado a Carlimi, que vendia a Ortiz. Segundo o líder do esquema, Carlimi poderia lucrar até R$100 mil com uma prova.
De posse das questões, Ortiz as entregava a professores de sua equipe para resolvê-las. Os gabaritos obtidos eram vendidos a candidatos recrutados por aliciadores também contratados por Ortiz. Ele confessou atuar neste ramo desde 1981.
¿ Eu fazia isso mais para ajudar as pessoas. Às vezes, recebia dinheiro. Ajudava de 15 a 20 pessoas por vestibular ou concurso público ¿ disse.
Na sexta-feira passada, a polícia chegou a prender Mauro Luiz Rabelo, o diretor acadêmico do Cespe, suspeito de ser um dos contatos da quadrilha. Por falta de provas, Rabelo foi liberado na manhã do dia seguinte. O reitor da UnB, Lauro Morhy, criticou a atitude da Polícia Civil no episódio, pois os policiais teriam efetuado a prisão sem antes intimar Rabelo a depor. Por este motivo, a UnB ajuizou uma petição no Tribunal de Justiça do Distrito Federal para colocar todos os funcionários e dirigentes do Cespe à disposição para quaisquer esclarecimentos à Justiça ou à polícia.
¿ Os métodos da polícia não podem ultrapassar a lei e os direitos humanos ¿ afirmou o reitor.