Título: PERDÃO DA DÍVIDA NÃO AJUDARIA PAÍSES, DIZ FMI
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Fonte: O Globo, 29/05/2005, Economia, p. 31

Importante é atrair investimento, afirma economista do órgão

WASHINGTON. Os apelos para que as dívidas externas dos países mais pobres do mundo sejam perdoadas, além de equivocados, não vão garantir necessariamente melhores condições de vida a essas nações, disse esta semana Raghuram Rajan, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Um perdão completo da dívida terá pouco efeito a não ser que gere novos investimentos privados, afirmou Rajan no boletim trimestral ¿Finance & Development¿, do Fundo.

Ele acrescentou que, devido ao alto grau de corrupção e excessivo volume de normas burocráticas, esses países não são atraentes para os investidores internacionais.

¿A redução do nível de endividamento governamental, sem qualquer recurso adicional ou reformas institucionais, não será suficiente para atrair investimentos¿, escreveu Rajan em sua análise.

Países ricos não chegam a consenso sobre o assunto

Esses comentários podem servir de combustível para o polêmico debate sobre perdão da dívida, que está agendado para ser retomado na próxima reunião do G-8 (os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia), marcada para julho, na Escócia. No encontro de abril, os ministros de finanças do grupo não conseguiram chegar a um consenso.

Os países industrializados estão divididos sobre como ajudar os países pobres com suas dívidas junto ao Banco Mundial (Bird). Os EUA propõem 100% de alívio nos débitos e substituição de empréstimos por bolsas. Já o Reino Unido prefere cancelar os custos do serviço das dívidas por uma década, manter os empréstimos e anular os débitos com o FMI.

Economista sugere perdão apenas parcial da dívida

Rajan disse que o problema com as propostas existentes é que elas pressupõem uma abordagem única para todas as situações. Ele lembra que o problema com o perdão total da dívida poderia representar, em vários casos, um prêmio para a irresponsabilidade de alguns governos, que acumularam um débito astronômico através de gastos e de programas inviáveis.

Em vez do perdão, Rajan propõe um alívio parcial da dívida, dependendo do país:

¿Um perdão moderado da dívida pode atrair um tipo de investimento de melhor qualidade, à medida que o setor privado passará a avaliar com mais cuidado a lucratividade de projetos¿, afirmou.

O economista-chefe do FMI disse ainda que a dívida não deve ser vista como um peso, exceto se estiver impedindo o crescimento, que normalmente, acrescentou, é atravancado por outros fatores.