Título: Ventos contrários
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 31/05/2005, O Globo, p. 2
Apesar da fervura na área política, a área econômica fez jorrar excelentes notícias, pelo menos para o mercado, que continua passando ao largo da crise. Num tal quadro econômico, a oposição tentará mesmo golpear ao máximo o governo através da CPI dos Correios, buscando inclusive o que ainda não conseguiu, colar a imagem do presidente aos desacertos de seu governo.
Mas com as manobras anti-CPI, os governistas continuam dando palanque à oposição, alimentando a crença de que o governo tem razões inconfessáveis para evitá-la. O presidente, pelo menos, tratou de tirar o assunto da agenda palaciana. Hoje veremos, através da pesquisa CNT-Sensus, se sua popularidade já foi afetada pelo escândalo nos Correios, as manobras para evitar a CPI e o mau gerenciamento político.
O governo anunciou ontem o maior superávit primário de todos os tempos, de 7,3% do PIB, bem acima da meta oficial. A relação dívida/PIB caiu de 50,8% em março para 50,1% em abril, podendo agora cair para menos de 50%, o que não acontece há quatro anos. A inflação também recuou, abrindo espaço para a redução dos juros. O dólar seguiu em queda, o que é ruim para as exportações mas é ditado por causas externas.
No outro mundo, o da política, o governo emite sinais contraditórios sobre a estratégia a ser adotada para debelar a crise. De sua parte, o presidente Lula tratou de se descolar pessoalmente do esforço anti-CPI, na linha que andou dizendo no Japão: CPI é assunto do Congresso e lá deve ser conduzido. Isso explica o cancelamento da reunião que teria com os ministros da coordenação do governo para tratar do assunto. Quis tirá-lo da agenda palaciana. Ao reunir-se com o ministro da CGU, Waldir Pires, e com o da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, quis demonstrar que, como chefe do Poder Executivo, está fazendo a sua parte. Acompanhando as investigações para as quais pediu rigor.
Mas seus líderes e articuladores continuaram marchando ontem na linha de evitar ou inviabilizar a CPI, agarrados ao entendimento de que o objetivo da oposição não é investigar as licitações dos Correios nem o suposto esquema do PTB, mas pegar o PT e um de seus peixes graúdos, colando ao governo a imagem do mar de lama.
Daí a opção por tentar barrar a CPI na Comissão de Constituição e Justiça, aprovando o argumento de inconstitucionalidade do deputado João Leão. Ele sustenta que o requerimento da oposição, no intertexto, dá margem à ampliação das investigações para outros órgãos do governo. E, em se tratando de CPI, a mera quebra de um sigilo telefônico já permite a produção em série de suspeitas, fundadas ou não em outros indícios. Derrubar cada requerimento de convocação ¿ de Dirceu e outros ícones do petismo ¿ custará muita energia e desgaste.
Mais desgastante pode ser, entretanto, esta estratégia protelatória, que chegará ao final de junho com a oposição obstruindo a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias e mantendo o Congresso em funcionamento durante o recesso, em torno de um só tema, a CPI que o governo não quer permitir. Neste ritmo, o vento política ainda pega o da economia.