Título: Nota do Exército sobre caso Herzog causa crise
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 19/10/2004, Opinião, p. 12

Provocou reação imediata no PT a divulgação de uma nota do Exército classificando de revanchismo a publicação, pelo ¿Correio Braziliense¿ de domingo, de fotografias inéditas do jornalista Vladimir Herzog sendo humilhado no cárcere do DOI-Codi de São Paulo, antes de ser assassinado durante a ditadura militar.

O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), advogado de ex-presos políticos, cobrou ontem, com o aval do Palácio do Planalto, uma manifestação pública do ministro da Defesa, José Viegas, desautorizando a posição do Exército.

¿ Quero ver como vai se portar o ministro. Se não se manifestar em 24 horas, será convocado para dar explicações ao Congresso. Estou ficando impaciente com o silêncio de Viegas. A nota do Exército é inadmissível e provocativa. O texto compromete o governo democrático do presidente Lula ¿ disse Greenhalgh.

Deputado compara nota à do caso Riocentro

Segundo ele, a nota é comparável à que foi feita no início dos anos 80 para explicar o caso da bomba no Riocentro.

¿ Esta é uma posição saudosista e feita por seguidores do Sylvio Frota ¿ disse Greenhalgh, numa referência ao então ministro do Exército, general Sylvio Frota, exonerado pelo presidente Ernesto Geisel em 1977 por sua oposição à liberalização do regime militar.

O presidente do PT, José Genoino, também reagiu ao conteúdo da nota do Exército.

¿ Essa nota está fora do tempo e reproduz conceitos da época do regime militar. Essa posição não reflete o momento que vivemos. As Forças Armadas já trataram desse mesmo tema com mais profissionalismo e espírito democrático. O texto destoa do atual espírito democrático das Forças Armadas ¿ criticou Genoino, ex-preso político.

O Palácio do Planalto foi surpreendido pelo teor da nota divulgada pelo Centro de Comunicação Social do Exército. Viegas estudava ontem a possibilidade de divulgar uma segunda nota apresentando nova posição do governo.

Segundo assessores do Planalto, o próprio presidente ficou constrangido com os termos usados pelo Exército. O ministro chegou a ser cobrado pelo Planalto sobre o assunto.

Segundo integrantes do governo, Viegas estava apreensivo e informou a ministros que não referendou o conteúdo da nota. Ontem à tarde, o ministro da Defesa chamou em seu gabinete o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, e relatou a insatisfação do Planalto.

Lula manifestou contrariedade com nota

Para interlocutores, Lula chegou a manifestar estranhamento e contrariedade sobre o conteúdo da nota por apresentar uma posição oposta à do governo em relação ao tema. Na nota, o Exército afirma que ¿mesmo sem qualquer mudança de posicionamento e de convicções em relação ao que aconteceu naquele período histórico, considera ação pequena reavivar revanchismo ou estimular discussões estéreis sobre conjunturas passadas, que a nada conduzem¿.

A nota diz ainda que, em relação às mortes que ocorreram no período, o Ministério da Defesa tem enfatizado ¿que não há documentos históricos que as comprovem, tendo em vista que os registros operacionais e da atividade de inteligência da época foram destruídos em virtude de determinação legal".

A reportagem do ¿Correio Braziliense¿ apresentou ainda um ¿Relatório Periódico de Informações¿ do 2 Comando do Exército, que informa teriam morrido nas dependências militares 50 dos 2.381 presos políticos que passaram pelo DOI-Codi paulista até 30 de setembro de 1975.