Título: SETOR AGRÍCOLA E CÂMBIO LEVAM IGP-M À DEFLAÇÃO
Autor: Fabiana Ribeiro
Fonte: O Globo, 31/05/2005, Economia, p. 21

Taxa de -0,22% em maio é a menor desde 2003, puxada pelo atacado, mas preços para o consumidor sobem

RIO, BRASÍLIA e BUENOS AIRES. Surpreendendo as expectativas dos analistas de mercado, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) registrou deflação de 0,22% em maio ¿ a menor taxa desde julho de 2003 ¿ contra 0,86% em abril. A desaceleração se deveu, principalmente, aos preços dos produtos agrícolas no atacado, que saíram de 0,96% em abril para -3,42%, a menor taxa desde maio de 1999, informou ontem a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A valorização do real também ajudou a derrubar o índice.

Apesar do forte recuo dos preços no atacado ¿ que têm peso de 60% na taxa geral ¿ o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), responsável por 30% do IGP-M, ficou no maior nível desde abril de 2003: 1,02%, contra 0,80% no mês passado. A alta foi puxada pelos reajustes de energia elétrica em Salvador (19,36%), Recife (6,40%) e Belo Horizonte (9,59%).

Além da energia, o IPC sofreu o impacto da alta de alimentos como pão francês (1,82%), óleo de soja (1,18%) e hortaliças e legumes (8,17%).

¿ O repasse da baixa dos preços do atacado para o varejo ainda está num ritmo muito lento. Daí essa grande diferença entre índices do varejo e atacado ¿ disse Salomão Quadros, coordenador de Análises Econômicas da FGV.

BC: estimativa do mercado para IPCA volta a recuar

Segundo Quadros, o fim da estiagem, novas safras e os preços de commodities no mercado internacional contribuíram para a queda no atacado em maio, como a do arroz em casca, de 14,31% e da soja, de 6,87%.

¿ Em um ou dois meses, o varejo deve repassar ao consumidor a queda de preços no atacado. É claro que isso não se dará com a mesma intensidade ¿ disse Quadros.

O economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, lembra que o câmbio tem influência direta nos preços de commodities como soja e arroz. Mas o efeito do dólar também atinge o preços de combustíveis, que recuaram de 3,33% para 0,48%.

¿ Como o preço do petróleo diminuiu e o câmbio está a favor, os preços caem. Para se ter idéia, a variação da gasolina passou de 0,74% no mês passado para -0,57% em maio ¿ disse Quadros.

Para os próximos meses, os economistas prevêem taxas mais baixas para os IGPs.

A estimativa do mercado para a inflação também vem recuando, devido aos seguidos aumentos de juros pelo Banco Central (BC). Segundo a pesquisa semanal ¿Focus¿, do BC, feita com cem analistas, a projeção do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2005 caiu de 6,38% para 6,35% ¿ ainda acima da meta de 5,1% fixada pelo governo. Para 2006, a estimativa continua em 5%, perto da meta de 4,5%.

Meirelles: é legítimo empresário pedir juro baixo

Em Buenos Aires, o presidente do BC, Henrique Meirelles, admitiu ser legítimo o desejo dos empresários brasileiros por juros menores. E lembrou que, quando era empresário, ¿também reclamava muito¿.

¿ Todos queremos juros menores no Brasil, não é verdade? Queremos inflação baixa, e que a economia cresça. Precisamos trabalhar sério para atingir isso ¿ disse Meirelles.

Ele comentou o IGP-M:

¿ Estamos observando os índices de inflação, chamando a atenção para o fato de que as metas de inflação são fixadas com base no IPC.

COLABORARAM Enio Vieira e Janaína Figueiredo