Título: Profusão de avisos
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 01/06/2005, O Globo, p. 2

Não se deve confundir eleitorado com opinião pública, já ensinava o senador mineiro Milton Campos, lembrando que eles andam em ritmos diferentes mas podem acabar se encontrando. O presidente Lula e seus assessores, que devem saber disso, certamente não se alegraram tanto com a indicação da pesquisa CNT/Sensus, de que ele continua favorito para a disputa presidencial.

A mesma pesquisa traz outros sinais de que o governo perde terreno na opinião pública, o segmento mais exigente e melhor informado do eleitorado. A ele certamente pertencem os entrevistados (em um universo pluralista) que, com suas respostas, determinaram a queda na aprovação do desempenho pessoal do presidente (de 60,1% em abril para 57,4% agora) e o aumento da desaprovação (de 29% para 32,7%). Este mesmo segmento de entrevistados possivelmente seja responsável pela queda na avaliação do governo, que passou de 41,9% em abril para 39,8% agora, mantendo um curva de declínio iniciada antes do escândalo dos Correios e da queda-de-braço com a oposição em torno da instalação de uma CPI. Sinal de que a desaprovação crescente tem relação com outras atitudes do governo e com suas políticas centrais, como a social e a econômica, que segundo a pesquisa, sofreram redução na aprovação. Um dado sobre o qual o governo deveria refletir diz respeito à condução política: 46,7% dos entrevistados, que teoricamente entendem menos de ação política que os cardeais do governo, acham que ela está errada, contra 35,6% que a aprovam. A razão da desaprovação não foi perguntada mas se fosse possivelmente as respostas apontariam a relação com os aliados e a brigalhada no PT. Ouve-se isso na rua.

Em relação à corrupção, 31% disseram que ela aumentou recentemente no atual governo, embora tenha crescido, de março para cá, o número dos que acham que hoje a corrupção é mais combatida que no governo Fernando Henrique (índice que passou de 26,9% para 31,4%). Este foi ontem o tema do almoço de Lula com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Lula quis um balanço detalhado de tudo o que seu governo já fez no combate à corrupção. O ministro não poupou detalhes e números, ao falar das operações da Polícia Federal, da criação e ação do DRCI, (o novo Departamento de Recuperação de Ativos Ilícitos e Combate à Lavagem de Dinheiro) e as ações da CGU na fiscalização do uso de recursos federais, sobretudo na esfera municipal. Repetiu o ministro que a percepção do aumento da corrupção cresce quando são desbaratadas quadrilhadas e furados antigos tumores. Mas cresceu também, certamente, com o caso dos Correios, que segundo a pesquisa alcançou um alto grau de conhecimento: mais de 50%, juntando-se os que ouviram falar e os que acompanham atentamente o caso. A CPI tem o apoio de 86% mas mesmo assim o governo mantém a estratégia de tentar matá-la aprovando um recurso de inconstitucionalidade. O custo é alto mas o da CPI seria maior, avalia. Para compensar, Lula quer uma ofensiva de comunicação que mostre à população o que ouviu de Bastos, e mais medidas de transparência, além do decreto que torna obrigatório o pregão eletrônico.

Mas a comunicação do governo tem um grave defeito. Só enxerga o eleitorado, a floresta. Não divisa, dentro dele, a exigente senhora opinião pública.