Título: Sensatez
Autor:
Fonte: O Globo, 02/06/2005, Opinião, p. 6
Os índices do desmatamento da Amazônia recentemente divulgados incluem pela primeira vez números relativos a cada um dos seis estados que constituem o chamado Arco do Desmatamento. Embora a área total destruída tenha sido 6% maior do que nos 12 meses anteriores - o triplo do previsto - em quatro desses estados a taxa de destruição recuou. Compreensivelmente, o governo aferra-se a este dado para afirmar que a situação está começando a mudar e que o plano de controle do desmatamento começará a mostrar em breve resultados positivos.
Reduzir a velocidade com que a floresta é devastada, se isso acontecer, será uma vitória para o governo e uma excelente notícia para o país. Mas é preciso lidar com os dados da realidade, e não com previsões otimistas.
E a realidade é desanimadora. Os 26 mil quilômetros quadrados de floresta destruídos de agosto de 2003 para agosto de 2004, que motivaram editoriais até no "New York Times", mostram um avanço crescente, e ao que parece descontrolado, do desmatamento. Não é de admirar que se volte a falar em internacionalização da Amazônia, ainda que este seja um tema brandido com alarmismo aqui dentro, e não como ameaça concreta lá fora.
Embora persistam dentro do governo correntes que defendem uma inviável intocabilidade da Amazônia, não faltam planos razoáveis, nem boas intenções. O que falta é competência administrativa para pôr em prática e monitorar a exploração racional da floresta, incluindo cuidados de reflorestamento e reciclagem. Não há outra alternativa sensata ao processo destrutivo atual.