Título: FONTELES CRITICA PRESIDENTE POR MANTER JUCÁ E MEIRELLES NO GOVERNO
Autor: Ilimar Franco e Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 03/06/2005, O País, p. 9

Procurador-geral elogia, porém, operações de combate à corrupção

BRASÍLIA. O procurador-geral da República, Claudio Fonteles, criticou ontem a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter no governo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro da Previdência, Romero Jucá, que estão sendo investigados pela Polícia Federal em inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Em entrevista ao site "Congresso em Foco", divulgada ontem, Fonteles, que foi o autor do pedido de abertura de inquérito contra Meirelles e Jucá, disse que o governo deveria exigir que os dois conseguissem um hábeas-corpus para interromper as investigações ou afastá-los do cargo até que o assunto estivesse esclarecido.

- Ou ele (governo) chega e pede a essas pessoas que estão sendo investigadas que desfaçam imediatamente a pretensão do procurador-geral, por meio de um hábeas-corpus, para trancar a investigação, ou as afasta cautelarmente e indica outro nome para o cargo - afirmou.

Meirelles é suspeito de crime eleitoral e evasão de divisas. Jucá é alvo de uma investigação para apurar irregularidades em um empréstimo concedido pelo Banco da Amazônia a uma empresa que na época era sócio, a Frangonorte.

"O pus estava ali havia anos. A ditadura alastrou o pus"

Na mesma entrevista ao "Congresso em Foco", Fonteles elogiou, entretanto, o combate à corrupção promovido pelo governo Lula:

- O sistema não está corrupto de hoje. O que o sujeito fez foi cortar aqui (apontando para o antebraço). O pus estava ali havia anos. A ditadura alastrou o pus. O silêncio do ditador impedia que você questionasse, e esse pus foi se acumulando. O que houve, e esse dado é muito positivo no atual governo, foi permitir essa interação entre as instâncias do governo que investigam e nós. Quando aconteceu isso pela primeira vez no país, o pus surgiu - explica.

- Você não pára de ver a gente (do Ministério Público) atuando junto com as instâncias do governo federal. O governo Lula permitiu isso.

Ao responder uma pergunta sobre a quantidade de parlamentares que respondem a processos no Supremo, Fonteles sugeriu que os partidos políticos fizessem um processo de triagem entre as pessoas dispostas a se candidatar a um cargo público.

- Na democracia não há cidadão acima de qualquer suspeita, todos devemos ser investigados. Eu tenho dito que há necessidade de os partidos políticos terem realmente uma comissão de ética que faça o exame de cada pessoa que queira, primeiro, entrar em seus quadros e, em entrando, disputar cargos eletivos. Acho isso muito importante. Não é criar uma comissão de ética nominal, não. Uma comissão de ética que trabalhe fortemente.