Título: Lula mostra irritação com trapalhadas do PT
Autor: Ilimar Franco e Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 03/06/2005, O País, p. 9

OPERAÇÃO ABAFA: APESAR DAS RECLAMAÇÕES, ESTARIA DESCARTADA UMA REFORMA MINISTERIAL NOS PRÓXIMOS MESES

Presidente tem dito a aliados que infantilidade e ambição de petistas estão criando problemas para o governo

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está irritado com seus companheiros de partido. Em conversas reservadas, tem se queixado que, em vez de soluções para os problemas políticos que o governo enfrenta, a ação de alguns petistas provoca mais confusão. O presidente acredita que as atitudes de muitos de seus companheiros - no governo, no Congresso e no partido - são marcadas pela infantilidade de uns e pela ambição desmedida de outros.

- Todo mundo quer ser meu tutor - protestou Lula, numa conversa com um parlamentar amigo, respondendo às críticas dos petistas, feitas nos bastidores, de que não toma as decisões necessárias.

Esta semana, o presidente irritou-se especialmente com a atitude do secretário de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, que propôs que os ministros petistas apresentassem uma renúncia coletiva, em reunião na segunda-feira à noite na casa da secretária da Mulher, Nilcéa Freire, como revelou O GLOBO. Lula lembrou que Gushiken, integrante da coordenação de governo, sabe que ele descartou a realização de qualquer reforma ministerial nos próximos meses, sobretudo no meio de uma crise política por causa da CPI dos Correios.

- Se o Gushiken acha uma demissão coletiva tão importante, que entregue o seu próprio cargo. Até porque no presidencialismo, todos os cargos estão sempre à disposição do presidente - disse um ministro que participou do jantar.

Lula já havia ficado irritado na semana anterior quando foi informado por um assessor que funcionários que têm gabinetes no terceiro e no quarto andar do Palácio do Planalto estavam avalizando a informação de que ele faria um "choque ético" no ministério ao retornar do Japão. Após saber disso, em Tóquio, o presidente fez duas ligações. Uma para o chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, determinando que ele desmentisse a informação; e outra para um ministro palaciano para pedir que ele calasse a boca de um de seus subordinados - de onde teria surgido a idéia. Neste mesmo dia, numa conversa com um de seus auxiliares, Lula reclamou.

- Isso é uma irresponsabilidade. Como podem os companheiros inventarem uma coisa dessas no meio de uma crise. Quando eu chegar ao Brasil vou acabar com essa conversa de reforma. Os ministros precisam de tranquilidade para tocar o governo - disse Lula.

Esta semana, Lula ouviu do líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) sugestões de mudanças no ministério.

Quando os petistas pisam na bola, Lula tem procurado intervir duramente. Em março, o presidente determinou que o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, mandasse uma carta ao ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, pedindo desculpas por ter defendido sua demissão do cargo. No mês passado, Lula pediu que Gushiken se desculpasse com Aldo. Também já se queixou que foi induzido ao erro na disputa pela presidência da Câmara e que foi mal aconselhado por João Paulo, que lhe garantiu que Virgílio Guimarães (PT-MG), candidato dissidente, estava sob controle e que iria retirar sua candidatura, o que não aconteceu.

Presidente recebe Renan

BRASÍLIA. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), após uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse que ele reafirmou confiança na inocência do ministro da Previdência, Romero Jucá (PMDB), que responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal. Na conversa, segundo Renan, falaram de mudanças no Ministério.

- Disse ao presidente que não era hora de fazer reforma ministerial, pois isso poderia parecer ação para abafar a CPI dos Correios - contou Renan, garantindo que teve a concordância de Lula.

Sobre os rumos da CPI, Renan disse que vai aguardar a sessão da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara que analisará o recurso pelo arquivamento da investigação. Se não houver decisão até quarta-feira, ele promete reunir os líderes e indicar os representantes da CPI.

- As pressões são legítimas, mas não sou porta-voz da oposição e nem líder do governo. Sou presidente do Congresso e como tal me pautarei pelo regimento.