Título: Raízes perigosas
Autor: Ricardo Galhardo, Jailton de Carvalho e Francisco
Fonte: O Globo, 04/06/2005, O País, p. 3
Ministério Público Federal investiga relação entre esquema de fraudes e partidos
OMinistério Público Federal investiga ligações de políticos com integrantes do esquema de desmatamento ilegal desbaratado pela Operação Curupira em Mato Grosso. Segundo o Ministério Público Federal, a origem das fraudes é a mesma da dos escândalos dos Correios e do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB): o loteamento de cargos entre os partidos. Madeireiras investigadas fizeram doações a candidatos do PT na eleição de 2004. O gerente-executivo do Ibama em Cuiabá, Hugo Werle, filiado ao PT, preso pela PF, é suspeito de chefiar um suposto esquema de arrecadação em Mato Grosso.
Conversas gravadas pela PF com autorização judicial indicam que envolvidos no esquema de emissão fraudulenta de autorizações do Ibama para explorar madeira doaram dinheiro para o candidato do PT à prefeitura de Cuiabá em 2004, Alexandre Luis César, temendo que Werle pudesse ser substituído caso o petista perdesse. O temor não se confirmou. O PT perdeu e Werle ficou no cargo até ser preso pela PF sob acusação de envolvimento em fraude na emissão de autorização para transporte de madeira.
¿Constatou-se também que houve aproveitamento de seu prestígio (Hugo Werle ) como gerente do Ibama para arrecadação de fundos para campanha política¿, diz relatório da PF que descreve a participação do gerente no esquema desvendado pela Curupira.
O esquema não envolveria arrecadação de fundos apenas para o PT. Uma escuta telefônica autorizada pela Justiça Federal mostra que o ex-secretário estadual de Meio Ambiente de Mato Grosso Moacir Pires, homem de confiança do governador Blairo Maggi (PPS), teria recebido dinheiro de empresários para legalizar uma mineradora em Chapada dos Guimarães, município a 60 quilômetros de Cuiabá.
Em conversa, relato sobre embargo
A escuta relata a conversa de Alex Leonardo de Oliveira, funcionário de uma empresa de reflorestamento, com o reflorestador Evandro Viero Trevisan. Ambos foram presos pela Operação Curupira. Em determinado trecho, Evandro comenta o embargo da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema) à mineradora Salomão:
"Lembra que fecharam da primeira vez? Aí meu tio deu dinheiro para o Moacir Pires, ele abriu e legalizou a Casa de Pedra. Aí você viu que fecharam de novo. O Ibama fechou".
O GLOBO tentou falar com o advogado de Pires, mas ele não atendeu às ligações. A PF não permitiu que o ex-secretário desse entrevista.
A Solar Madeiras Especiais, uma das empresas investigadas, doou R$15 mil para a campanha de Alexandre e R$3 mil para o candidato a vereador Nelson Borges. O petista recebeu ainda R$5 mil da madeireira Cimafram. A Solar é investigada por supostamente receber Autorizações para Transporte de Produtos Florestais (ATPFs) em nome de empresas fantasmas e repassá-las a madeireiras da família Turati que, de acordo com o Ministério Público Federal, é uma das que mais se beneficiaram com as fraudes.
O ex-candidato a prefeito, que também preside o diretório do PT em Mato Grosso, foi procurado, mas não respondeu às ligações. O partido divulgou nota na qual, após defender a ação da PF, diz: "O PT de Mato Grosso, diante do fato de que entre os acusados há filiados indicados para cargos comissionados pelo partido no estado, reafirma seu compromisso com a preservação da ética na política e na administração pública. Caso sejam comprovadas as acusações, não se furtará em aplicar aos envolvidos as medidas estatutárias cabíveis."
Gravação provaria arrecadação
O relatório da PF cita duas conversas para comprovar que Werle estava envolvido com a arrecadação de campanha. Na primeira, gravada em 18 de outubro de 2004, conversam o madeireiro Elvis Cléber Portela e uma mulher identificada como Ivana. Ela vende o convite do jantar de arrecadação da campanha petista. ¿Preciso vender um convite de um jantar da campanha do Alexandre pra você¿, diz Ivana. Mais adiante, ela completa: ¿Eu tô ligando aqui, eu tenho que passar tudo pro professor Hugo (Werle).
Além de Werle, o chefe do escritório do Ibama em Aripuanã, Paulo Salazar, que está preso, é suspeito de agir a mando de políticos. Gravações autorizadas pela Justiça mostram que ele era o responsável pelas indicações de cargos-chave no Sistema de Fluxo de Produtos e Subprodutos da Floresta (Sismad), que faz o controle da produção de madeira. Segundo o Ministério Público Federal, Salazar foi indicado pelo PP e também era responsável por recolher o dinheiro do esquema com empresários. O deputado Pedro Henry (PP-MT) confirmou que fez indicações para o Ibama, mas nega que tenha relações com Salazar.
COLABOROU Anselmo Carvalho Pinto
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