Título: GOVERNO ADMITE ACERTO DE CONTAS COM A VARIG
Autor: Geralda Doca
Fonte: O Globo, 03/06/2005, Economia, p. 23
Planalto dá sinal verde à venda de 20% da companhia para a TAP. Operação pode ser concluída em seis meses
BRASÍLIA. O governo deu aval para que a Varig leve adiante seu plano de reestruturação - que prevê a venda de 20% do capital da companhia para a TAP - e voltou a admitir fazer um acerto de contas entre o que a empresa brasileira deve aos credores públicos e o que tem a receber como indenização pelo congelamento tarifário da década passada. A proposta formal foi apresentada ontem pelo alto comando das duas companhias aéreas ao vice-presidente da República e ministro da Defesa, José Alencar, e aos ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Fazenda, Antonio Palocci.
Depois do encontro, o presidente da TAP, Fernando Pinto, acompanhado pelo presidente do conselho de administração da Varig, David Zylbersztajn, afirmou que os ministros elogiaram o projeto e que a operação será concluída em até seis meses. Ele disse também que a companhia portuguesa irá mesmo entrar com recursos na capitalização da Varig, que receberia inclusive novos aviões para a frota.
- A TAP vai participar com 20% do capital da Varig. Além disso, haverá todo um processo de capitalização, com entrada de aviões - explicou Fernando Pinto.
Empresas de 'leasing' resistem ao acordo
Segundo fontes próximas às negociações, a Varig contratou uma empresa de auditoria para calcular o montante a ser investido pela TAP na empresa. Zylbersztajn evitou dar detalhes da operação e disse que não está prevista injeção de dinheiro público, mas que será necessário um esforço por parte de todos os credores, inclusive do governo federal. Na reunião, eles argumentaram que já conseguiram renegociar com 80% dos credores internacionais. Uma fonte próxima da empresa afirmou, no entanto, que as empresas de leasing de aviões, que estão na lista de credores da companhia, estão resistentes a negociações. A dívida da Varig com empresas de leasing está estimada em US$700 milhões.
- Existe toda uma estruturação financeira vinculada a créditos e débitos, a questões que ficaram pendentes e coisas antigas, inclusive o acordo de contas - disse.
Uma fonte do governo confirmou que a proposta apresentada pela Varig prevê ainda o alongamento de crédito com a Infraero e a BR Distribuidora. Segundo essa fonte, o governo mudou de idéia e está disposto a negociar. No entanto, a empresa ainda ficou de apresentar dados concretos, como o cálculo das ações ganhas na Justiça e exatamente quais débitos elas compensariam. No fim do ano passado, a Varig ganhou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma causa de R$2,5 bilhões, relativa ao congelamento de tarifas na época do Plano Cruzado.
Durante a reunião, os ministros teriam dito aos executivos que, quanto aos credores públicos, as negociações terão que ser individuais, de acordo com os parâmetros constitucionais e estatutários de cada um.
- O governo não se comprometeu em nada por enquanto. Mas ele está de acordo, acha que a proposta tem início, meio e fim e pode funcionar - afirmou Zylbersztajn.
Fernando Pinto destacou, ainda, que a operação não incluirá a substituição de uma empresa por outra em alguns mercados - a Varig vai continuar com suas rotas, tanto no mercado doméstico, quanto no internacional. Ele negou, ainda, que a participação da TAP, controlada pelo governo português, no saneamento financeiro da Varig vá afetar o déficit público de Portugal.
COLABOROU Erica Ribeiro