Título: PEDOFILIA: ALEMÃES CRIAM TRATAMENTO
Autor: Graça Magalhães
Fonte: O Globo, 05/06/2005, O Mundo, p. 45
Instituto lança projeto de tratamento gratuito de portadores da doença, reconhecida pela OMS
BERLIM. O caso de Marc Dutroux poderia ter sido evitado? Crianças como Levke e Felix ¿ alemães de 8 anos assassinados no ano passado ¿ viveriam se o assassino tivesse tido a chance de ajuda? A pergunta deverá ser esclarecida com um projeto inédito iniciado pelo Instituto de Medicina Sexual da Charité, popular clínica de Berlim. O objetivo é combater a pedofilia pela raiz, com a oferta de terapia gratuita para pedófilos. De acordo com Christoph Joseph Ahlers, um dos coordenadores do projeto, a pedofilia ¿é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como distúrbio sexual, e não desaparece¿.
¿ Tratá-la é a forma mais segura de proteger as crianças ¿ diz ele.
Na Alemanha, especialistas calculam que ocorram 16 mil casos de pedofilia por ano. Estatísticas em outros países europeus mostram situações igualmente alarmantes.
Tendência genética agravada por questões familiares
O número de vítimas é em parte conhecido. Mas quem são os criminosos? Ahlers diz que o assunto é pouco pesquisado, mas a estimativa é de que 1% da população masculina mundial sofra de algum grau de pedofilia.
As causas da doença são desconhecidas. A explicação mais comum em processos criminais é de que os pedófilos são homens que nasceram com uma tendência genética agravada por questões familiares. Depoimentos colhidos nos últimos cinco anos apontam, sobretudo, a presença de uma mãe dominadora.
¿ É difícil curar com terapia um homem que violentou e assassinou uma criança porque neste caso há um outro componente: a tendência ao sadismo ¿ diz o professor Michael Osterheide, da Universidade de Regensburgo.
Especialistas alemães exigiram recentemente prisão perpétua sem direito a liberdade condicional para os culpados de abuso sexual contra crianças. O debate se intensificou no país por causa de Ayla, uma menina de 6 anos assassinada semanas atrás por um homem de 37 anos que já fora condenado por delito semelhante.
Para especialistas do Charité, a maioria dos criminosos teria sido contida se existisse ajuda. O projeto inclui uma campanha publicitária em toda a Alemanha com oferta de ajuda terapêutica aos pedófilos.
¿ Queremos evitar que homens doentes se tornem criminosos. Muitos pedófilos se sentem inteiramente perdidos com seu problema. Têm medo de se tornarem criminosos mas não conseguem controlar a atração por crianças ¿ diz Ahlers.
O médico não classifica o belga Marc Dutroux como pedófilo porque diz que ele agiu tendo em vista lucros que obteria com uma rede de pedofilia na qual estava envolvido ¿ embora ele tenha sido condenado no ano passado à prisão perpétua por violentar seis meninas, matar duas delas e causar a morte de outras duas.
O Charité tem entre seus pacientes homens de diversas classes sociais que procuram ajuda médica para evitar o crime. São, no entanto, minoria.
¿ São homens que se sentem monstruosos por causa de suas fantasias sexuais ¿ afirma Ahlers.
Apesar do sigilo médico obrigatório, muitos pacientes temem sofrer segregação social se confessarem seus problemas. Há ainda a questão financeira, já que seguros de saúde não cobrem tratamentos de pedofilia.
Tratamento mistura conversas e medicamentos
Com o projeto, os cientistas querem chegar ao número real de pedófilos e saber quantos estariam dispostos a se submeter a tratamento.
A terapia consiste em conversas e medicamentos. Os remédios são semelhantes àqueles prescritos em outros casos de distúrbio mental. Os pedófilos aprendem que têm um problema grave e que precisam se policiar. Enquanto um grupo de pacientes é de homens extremamente tímidos, que buscam crianças por temerem o contato com uma mulher adulta, uma minoria só sente atração sexual por crianças.
¿ Nosso trabalho consistirá em convencer esses homens de que nunca poderão concretizar seu desejo ¿ diz o terapeuta.
Cinqüenta homens já se apresentaram para se submeter à terapia. Ahlers calcula que até o fim do ano o número será muito maior e que muitas crianças serão poupadas de um destino brutal como o de Levke e Felix, mortas por Marc Hoffmann. Aparentemente normal, Hoffman cuidava sozinho da filha de 10 anos. Em conversa com outros presos, ele disse ter matado mais seis crianças apenas para satisfazer sua atração sexual.