Título: DECRETO NÃO APLACA CRISE BOLIVIANA
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 04/06/2005, O Mundo, p. 28

Mesa convoca Assembléia Constituinte e referendos, mas opositores rejeitam medidas

Numa tentativa desesperada de evitar o colapso de seu governo, o presidente da Bolívia, Carlos Mesa, aprovou na madrugada de ontem um decreto que prevê a convocação de uma Assembléia Constituinte e referendos sobre a autonomia de quatro departamentos (estados) bolivianos em 16 de outubro. Apesar de as duas medidas serem as principais exigências dos movimentos sociais que nas últimas semanas levaram milhares de pessoas a protestos em cidades e estradas de todo o país, foram rejeitadas pelos partidos políticos, movimentos sociais e setores empresariais. Eles acusaram Mesa de apelar a uma manobra ilegal para permanecer no poder.

A pedido de Mesa, as principais autoridades eclesiásticas do país (a Igreja é uma das instituições mais fortes e respeitadas da Bolívia) se reuniram no departamento de Santa Cruz e convocaram um grande encontro nacional para tentar salvar o governo. A mediação da Igreja pode ser a última oportunidade de Mesa. Para opositores do presidente, porém, o pedido demorou a chegar.

¿ Estamos de acordo com a posição da Igreja e apoiamos sua convocação. A Igreja deve estar à frente do processo de união nacional, mas para Mesa é tarde demais ¿ disse ao GLOBO por telefone o deputado Hernán Vega, do Movimento ao Socialismo (MAS), comandado pelo deputado e líder cocaleiro Evo Morales.

Vega disse que Mesa deve renunciar e entregar o poder ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Eduardo Rodríguez, para que este convoque eleições em seis meses. Já Morales ¿ um dos principais opositores e candidato com chances de chegar ao poder nas eleições ¿ disse que ¿a intenção de Mesa foi boa mas o decreto é inconstitucional¿, pois tanto a Assembléia Constituinte como os referendos deveriam ser convocados pelo Congresso. O líder cocaleiro respaldou a posição da Igreja, mas disse que continuará a pressionar o governo.

¿ Ele pode estar tentando desmobilizar os setores sociais que estão nas ruas ¿ afirmou.

Brasil rejeita intervenção da OEA

A situação em La Paz ontem era caótica. Pelo segundo dia consecutivo, uma greve no setor de transportes praticamente paralisou a atividade econômica na região. De acordo com o Serviço Nacional de Caminhos, foram bloqueadas as estradas que ligam a capital às cidades de Potosi, Cochabamba, Chuquisaca e Tarija. O presidente da Federação de Empresários de La Paz disse que a região perde de US$1,5 milhão a US$2 milhões por dia, devido a bloqueios e greves. Em alguns postos de gasolina começou a faltar combustível e setores da população já alertam para o perigo de desabastecimento de alimentos.

No início da noite, um grupo não identificado tentou ocupar a sede do Estado Maior Conjunto para exigir a renúncia de Mesa e a formação de um novo governo civil-militar. Segundo informações extra-oficiais, integrantes da Confederação de Trabalhadores da Bolívia participaram da ação.

Assessores do presidente asseguram que ele não cogita renunciar.

¿ O decreto era a única alternativa para iniciar um processo de diálogo. O Congresso não conseguiu atuar e o presidente se viu obrigado a assumir a responsabilidade de conduzir o processo político ¿ argumentou o deputado Omar Vargas, amigo e colaborador do presidente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu ontem a crise na Bolívia com chanceler Celso Amorim e o assessor especial para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, que esteve semana passada naquele país e se encontrou com Mesa. Garcia concordou ontem com a posição de Mesa de rejeitar a intervenção da Organização dos Estados Americanos (OEA) no processo. Para o governo, a crise deve ser resolvida pelos bolivianos.

COLABOROU: Cristiane Jungblut, de Brasília