Título: Busca da linguagem ideal para conquistar fãs
Autor: Mànya Millen
Fonte: O Globo, 04/06/2005, Prosa & Verso, p. 2
Sucesso dos lançamentos estrangeiros fez com que editoras investissem em autores nacionais para renovar mercado
A professora e escritora Regina Zilberman, que lançou recentemente pela Objetiva ¿Como e por que ler a literatura infantil brasileira¿, reconhece que o segmento juvenil andava meio abandonado. Uma das teses levantadas por ela é a de que a literatura infantil nacional, com nomes como Ruth Rocha, Ziraldo, Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós e tantos outros, tornou-se tão forte que intimidou a juvenil.
¿ Esse limbo foi preenchido por lançamentos com histórias de magia, como Harry Potter ¿ observa Regina. ¿ E a história dos órfãos Baudelaire (da coleção Desventuras em Série, grande sucesso da Cia. das Letras) é herdeira direta de Charles Dickens. O espaço que Mark Twain e Dickens ocuparam para outra geração está sendo substituído e isso não é para se lamentar, é bom de ver.
Regina diz, entretanto, que se o mercado editorial brasileiro reagiu positivamente aos livros estrangeiros incentivando autores nacionais, estes ainda têm que encontrar uma linguagem mais próxima dos jovens:
¿ O autor tem que ser alguém mais jovem, ou com menos história dentro da literatura, porque a força do padrão se impõe para quem já está há muito tempo no mercado.
Humor como um dos principais trunfos
Talvez o frescor explique o furor causado pelos livros da ex-jornalista Thalita Rebouças, de 30 anos, junto às adolescentes. Em 2003, ela decidiu dedicar-se integralmente à literatura para garotas ¿ ¿Porque sou mulherzinha mesmo!¿, brinca ¿ diante do sucesso estrondoso de seu terceiro livro, ¿Tudo por um pop star¿ (Rocco).
¿ Eu viro adolescente quando estou do outro lado, escrevendo. É claro que eu me preocupo com a linguagem, mas ela flui naturalmente ¿ conta Thalita, que está sempre em contato com suas fãs. ¿ Essa proximidade faz com que falar a língua delas seja natural.
Thalita, como Angélica Lopes (autora de ¿Conspiração astral ¿ Missão amizade¿), é um dos trunfos da Rocco, que, a exemplo de outras editoras brasileiras, vem apostando em textos nacionais para alimentar a área jovem, tanto para meninas como para meninos.
¿ As meninas lêem livros de meninos, mas o contrário não acontece, o que não significa que eles não leiam muito também ¿ lembra Ana Martins, editora da área infanto-juvenil da Rocco. ¿ Agora estamos investindo na linha Azul Radical, para meninos. O fundamental é que todos leiam muito, para que fiquem encantados pela leitura, pelo livro.
Entre os títulos recém-lançados da coleção Azul Radical estão ¿A história de Dany-Boy¿, de Alberto Alecrim, e ¿De punho cerrados¿, de Pedro Bandeira. A Rocco também mantém um núcleo de jovens leitores que analisam os principais lançamentos estrangeiros antes que eles cheguem às ruas. Muitos já tiveram modificações feitas a partir das observações destes analistas-mirins. São atentos leitores como Monique Marques Soares, de 13 anos, fiel a Meg Cabot, Thalita Rebouças e Heloísa Perissé, entre outras autoras.
Monique serve como um exemplo para o distanciamento apontado pelo escritor Luiz Antonio Aguiar entre os livros paradidáticos adotados nas escolas e os eleitos espontaneamente pelos jovens.
¿ Não gosto muito dos livros indicados pelo colégio ¿ confessa ela. ¿ Mas eles vivem dizendo também para lermos outros por fora, que não adianta lermos livros chatos.
Uma das críticas feitas por Aguiar é o engessamento provocado pela orientação do Ministério da Educação, que estipulou seis temas transversais que devem perpassar todo o ensino, como ética, pluralidade cultural e orientação sexual. Para escoarem sua produção, editoras e autores começaram a publicar seguindo as fórmulas. E os livros ficaram chatos.
Breno Lerner, diretor-geral da Melhoramentos, que tem em seu catálogo os best-sellers da série Coisas ¿ como ¿Coisas que todo garoto deve saber¿ e ¿Mais coisas que toda garota deve saber¿, de Antonio Carlos Vilela ¿ discorda:
¿ Quem quiser escrever para a escola que escreva, e quem não quiser escrever, que não o faça. A série Coisas não é adotada por escolas. Quando o livro é bom, ele vende muito mesmo sem a adoção escolar.
Em seu confortável posto de veterano da área, Pedro Bandeira, que há 21 anos lançou ¿A droga da obediência¿, ainda o carro-chefe da editora Moderna, afirma que os autores já estão fazendo livros sobre temas importantes sem serem chatos. Defensor da série Harry Potter, Bandeira também acredita que toda e qualquer leitura deve ser estimulada. E se orgulha de fazer parte de uma geração de escritores que abriu caminhos da leitura para os jovens.
¿ A literatura é uma bela e enorme montanha que tem no topo Baudelaire, Shakespeare, Machado de Assis. Mas para chegar até lá há uma escada para subir. Eu e meus colegas como Ziraldo, Ruth Rocha, Ana Maria Machado somos esses degraus intermediários e nos orgulhamos disso. Se eu não existisse talvez muita gente não chegasse a Baudelaire.